sexta-feira, 18 de março de 2016

A Insustentabilidade do Governo Dilma - Nildo Viana




As Lições das Ruas

Nildo Viana


A rua é um lugar público e de mobilidade dos indivíduos. É também o lugar onde, geralmente, ocorrem manifestações. Ontem, domingo, elas estavam lotadas. O protesto era contra o governo de Dilma Roussef e a corrupção. Algumas pessoas aprendem com as experiências, outras não. As que aprendem com as experiências possuem uma tendência de não repetir os erros do passado. As que não aprendem, ao contrário, possuem a tendência contrária, ou seja, repetir os erros do passado. É por isso que poderíamos aprender com as manifestações de ontem, que deram algumas lições que deveríamos analisar e aprender com elas. No entanto, vamos analisar as lições das ruas apenas no que se refere ao público intelectualizado, especialmente o setor alinhado à ala governista do bloco dominante (petistas e aliados) e ao bloco progressista (expresso pelos partidos políticos de “esquerda” não aliados do governo, mas envolvidos ou iludidos com ele).

A primeira lição é não subestimar o descontentamento da população. Alguns só conseguem ver o descontentamento nas eleições. A crise financeira atinge toda a população e, sem dúvida, gera um alto grau de descontentamento, que se amplifica ainda mais com as denúncias de corrupção e com a percepção de um governo inoperante que não consegue esboçar nenhuma reação diante da mesma. O descontentamento pode ficar latente e pode não ser facilmente perceptível, mas tende a emergir quando ocorrem determinadas situações que permitem sua manifestação. O pensamento burguês – em sua variante conservadora ou progressista – tende a não perceber esse processo e ver no fato apenas o fato, se iludindo com o “empírico”, tornando-se incapaz de perceber as potencialidades e tendências.
A segunda lição é não reproduzir os esquemas de pensamento simplistas, tal como a oposição entre governistas e oposicionistas conservadores como a única coisa existente. Sem dúvida, a ala governista do bloco dominante (Governo Dilma, PT e aliados) tem interesse nessa polarização e dicotomização tanto quanto a ala oposicionista (partidos da oposição parlamentar, como PSDB, DEM e outros), pois assim podem inibir atos e falas de pessoas que não querem ser confundidos com um ou outro. Em termos populares (e popularizados pelos defensores de ambos os lados), a oposição simplista entre “petralhas” e “coxinhas” beneficia aos dois, gerando não só estereótipos negativos do lado adversário, mas inibindo um terceiro lado. A polarização entre os dois lados existe, mas não é absoluta e só serve para reproduzir a falta de opção, que pode gerar extremismos no interior da dicotomização ou explosões de violência por falta de opção.

A terceira lição, intimamente ligada com a segunda, é que os setores intelectualizados da população alinhados à ala governista (ou ao bloco progressista, que parece imobilizado pela polarização e por isso não se apresenta como oposição e assim deixa a população sem opção institucional, já que a dicotomização é entre duas alas do bloco dominante, pois o bloco revolucionário é anticapitalista e antiparlamentar), deveriam ao invés de menosprezar a população, desde o que chamam de “classe média” aos trabalhadores, que alguns chamaram de “inocentes úteis”.

A classe intelectual, devido sua profissão e ofício, deveria ser mais profunda em suas análises da realidade política nacional. Mais ainda os das ciências humanas, pois isto faria parte do seu “objeto de estudo” (claro que não para certas tendências, submetidas ao “fetichismo do corpo” ou “fetichismo da identidade”, entre outras aberrações intelectuais). Infelizmente, os meios intelectualizados acabam reproduzindo a superficialidade dos partidários da ala governista ou da ala oposicionista do bloco dominante. No primeiro caso, o que é mais comum nos meios acadêmicos na área de humanas, onde a análise deveria ser mais profunda, é desqualificar os indivíduos que participaram das manifestações e, mais ainda, os trabalhadores, que seriam “inocentes úteis”. O mesmo poderia ser dito desses meios intelectualizados (mais ainda os das universidades federais), pois ao reproduzirem o discurso governista, funcionam como “inocentes úteis”. Eles acabam reproduzindo, acriticamente, as correntes de opinião dos partidos mais influentes. Obviamente que valores e interesses são poderosos nesses casos, mas lembrando de que as greves nas universidades (em 2012 e 2015) tiveram como alvo o Governo Federal e sua política de precarização dessas instituições, isto é, no mínimo, incoerente. A única explicação para a reprodução do discurso governista e simplista, no caso dos meios acadêmicos, é a ilusão da polarização que impede a capacidade de reflexão crítica. O mais curioso é que justamente os meios intelectualizados, aqueles que deveriam ser mais ativos e apresentar projetos alternativos, ou se aliam ao discurso governista que está totalmente perdido e inoperante, ou ficam na defensiva com medo de ser rotulado como estando do lado oposto, o que reforça esse mesmo lado ao não se produzir uma alternativa. A maioria das pessoas que estavam nas manifestações não era favorável à ala oposicionista do bloco dominante, mas estavam perdidos por não ter alternativa (não querem nem a ala governista, nem a oposicionista). O bloco progressista (expresso pelo PSOL, PSTU, etc.) acaba se mostrando tão inoperante na ação política e sem iniciativa quanto do governo Dilma e junto com ele uma grande camada da classe intelectual que não é exatamente pró-governista, mas que teme ser confundida com a ala oposicionista do bloco dominante.

A quarta lição é entender que não é apenas a suposta “esquerda” (nome problemático e que pode se incluir coisas distintas e até antagônicas) que consegue mobilizar a população. Ela se mobiliza espontaneamente e pode ser mobilizada por outros setores da sociedade (o capital comunicacional é poderoso nesse aspecto). A grande questão é quando a suposta “esquerda” fica ausente da mobilização, deixando campo livre para as forças conservadoras, pois eles reforçam o que combatem, contraditoriamente. Um grande contingente de pessoas com baixa politização, com alta desilusão, buscando uma alternativa que não se apresenta, vai para as ruas e o bloco progressista fica alheio (“esperando a banda passar”). O elogio de certos setores e indivíduos durante as manifestações mostra justamente isso. A miséria do bloco progressista e a fraqueza do bloco revolucionário tornam possível um juiz federal ser a figura de maior destaque nas manifestações de 13 de março.

A quinta lição é que a insatisfação da população é mais ampla do que se imaginava. A política institucional (democracia representativa, governo, etc.) enfrentou sua primeira grande crise nas manifestações de 2013 e ela foi varrida para debaixo do tapete com o circo armado no ano seguinte da Copa do Mundo de futebol e eleições presidenciais (com o reforço da repressão policial pelo governo federal). Em 2015, ela esboçou um reaparecimento, mas a polarização entre ala governista e ala oposicionista do bloco dominante acabou enfraquecendo a sua tendência de ressurgimento. A luta pelo poder e a crise financeira, criando uma situação institucional insustentável, juntando com a incompetência generalizada dos partidos, escândalos de corrupção e falta de alternativas, já mostra um novo esboço de seu ressurgimento. A crise da política institucional aumentou com a visibilidade da corrupção (e a percepção de que ninguém escapa dela) e vem reforçar o alto grau de descontentamento que já existia. Assim, a direita e a esquerda capitalista estão imobilizadas e sem capacidade de forjar uma alternativa. A solução em curto prazo seria a deposição (via impeachment ou cassação) de Dilma Roussef e novas eleições, nas quais a classe dominante esperaria, desesperada, o surgimento de alguém que pudesse relegitimar a política institucional, um salvador da pátria, que assumisse a imagem de honesto e anticorrupção (trajeto que vem sendo trilhado por Ciro Gomes), tal como aconteceu com Fernando Collor de Melo, o que é suficiente para demonstrar o seu caráter ilusório.

Resta, então, o bloco revolucionário apresentar a única alternativa possível e viável e que realmente resolve o problema: a auto-organização e autoformação da população, especialmente as classes desprivilegiadas, as mais prejudicadas por este estado de coisas, visando constituir uma nova sociedade ao invés de remendar a atual. Para isso, precisa se fortalecer, aglutinar os descontentes sem rumo, se aproximar mais da população, não temer a confusão com a ala oposicionista do bloco dominante e romper definitivamente com qualquer ilusão com a ala governista e petista. É preciso deixar claro que tanto faz se são “petralhas” ou “coxinhas”, são farinha do mesmo saco, só a cor é diferente. A crise financeira e a crise político-institucional estão se arrastando e arrastando também as classes desprivilegiadas para uma situação de precariedade cada vez mais intensa. A insatisfação tende a crescer cada vez mais e as ruas tendem a ganhar novas cores e pessoas, o que vai marcar a retirada de outras. Por isso, mais do que nunca, a formação intelectual e política da população e sua auto-organização se torna a única forma de se ver uma luz no final do túnel.

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Versão em Áudio:
https://www.youtube.com/watch?v=SVUQ2Fm1Hgw
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Leia mais:

A Insustentabilidade do Governo Dilma:

A Luta de Classes no Brasil:

A Corrupção na Sociedade Brasileira:

Veja mais:

Dilma, um rock bolero:

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

"A Dinâmica da Violência Juvenil", lançamento de livro.



LANÇAMENTO DO LIVRO "A DINÂMICA DA VIOLÊNCIA JUVENIL".
Sexta às 20:00
Biblioteca do SESC, Centro, Rua 15 (esquina com rua 19), térreo, Centro, Goiânia-Go (Próximo ao Colégio Liceu).

Nessa data também será lançado o livro de Veralúcia Pinheiro e Lúcia Freitas, "Violência de Gênero, Linguagem e Direito", entre outros.





domingo, 20 de julho de 2014


Prorrogação de prazo para resumos e trabalhos completos no III Simpósio Marxismo Libertário. Inscrições e instruções:http://nupac.net/inscricoes2014.html


domingo, 18 de maio de 2014

sábado, 22 de março de 2014

Artigo sobre Nildo Viana e teoria da autogestão


NILDO VIANA: CRÍTICA DO CAPITALISMO E PROJETO AUTOGESTIONÁRIO

Maria Angélica Peixoto

RESUMO


A obra de Nildo Viana tem como elemento fundamental e fio condutor o projeto autogestionário. Para entender essa afirmativa, é preciso reconstituir sua produção teórica destacando alguns elementos preliminares, presentes em sua crítica do capitalismo. Essa crítica do capitalismo pode ser dividida em: crítica do capital, crítica da burocracia, crítica da política, crítica das ideologias. A crítica, no entanto, é percebida por ele da mesma forma que em Marx, ou seja, a crítica não vem para as pessoas superarem as ilusões, as “flores imaginárias” que enfeitam suas prisões e reproduzir o que existe, e sim para que em seu lugar “brotem flores vivas”, ou seja, o projeto autogestionário.

TEXTO COMPLETO:

TEXTO COMPLETO

sábado, 2 de novembro de 2013



Chamada de artigos para o dossiê temático:

GERAÇÕES: juventude e velhice na sociedade moderna
Org.: Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luís Antonio Groppo (UNISAL/SP), Nildo Viana (UFG/GO) e Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO)

A revista SOCIEDADE E CULTURA torna pública a chamada de artigos para o dossiê temático “Gerações: juventude e velhice na sociedade moderna”, organizado pelos profs. Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luís Antonio Groppo (UNISAL/SP), Nildo Viana (UFG/GO), Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO). A publicação é prevista para o v. 17, n. 1, 1º semestre de 2014.
Serão aceitos artigos escritos em português, inglês ou espanhol, que estejam em conformidade com as normas da revista (disponíveis em www.revistas.ufg.br/index.php/fchf), e que digam respeito ao tema proposto pelo/a/s organizador/a/s, assim formulado:

As gerações se encontram entre os temas em evidência na contemporaneidade e o seu conceito comporta múltiplas significações. De acordo com o “olhar” recortado de cada campo de conhecimento ou instituição, elas adquirem contornos que lhes dão conformidade e permitem que sejam identificadas, reconfiguradas, normatizadas, tendo como centralidade temporal os ciclos de vida. Na sociologia, o esforço teórico para apreendê-las como um objeto de investigação tem sido considerável, com destaque para as reflexões teóricas de Karl Mannheim, que de certo modo apresenta à sociologia uma conceituação mais próxima ao conhecimento desse campo científico. Não obstante, do ponto de vista sociológico, o debate teórico e conceitual se encontra em aberto, exigindo atenção e rigor cada vez maior, na medida em que a complexidade da sociedade contemporânea insere novos problemas, tornando mais fluidos os recortes temporais dos ciclos de vida. Esse dossiê se propõe a continuar o salutar debate em curso, a partir de duas fases distintas do processo geracional: a juventude e a velhice. O tema da juventude vem ganhando cada vez mais espaço nas discussões sociológicas. Ao lado da produção mais antiga, novas abordagens e pesquisas passaram a ser realizar, principalmente a partir dos anos 1960 e ganhando novo impulso a partir do início do novo século, o que está relacionado com a mobilização juvenil e estudantil gestada nesse período. As culturas e grupos juvenis, suas lutas e manifestações sociais, suas condições de vida e envolvimento com outros setores da sociedade, tais como escola, meios de comunicação, políticas públicas, são alguns dos temas específicos mais desenvolvidos nessa área. A velhice é a mais recente das gerações a se inserir no campo de investigação sociológica. Sua irrupção resulta da longevidade que tem caracterizado a sociedade contemporânea nas últimas décadas, trazendo à tona a existência social de uma geração até então à margem, e que tem ocupado um espaço crescente na estrutura etária, trazendo novas necessidades e exigindo cuidados próprios de um ciclo de vida que, em si, evoca a preservação dos valores, a memória e a tradição de uma dada sociedade. 

As contribuições devem ser enviadas diretamente para os organizadores, através dos e-mails: nildoviana@ymail.com e freitas@cienciasociais.ufg.br (ou através do portal da revista).
Prazo para o envio: 20 de novembro de 2013.
Além dos artigos para o dossiê, SOCIEDADE E CULTURA também recebe, em fluxo contínuo, outras contribuições: artigos sobre temas diversos, notas de pesquisa, resenhas de livros relevantes nas ciências sociais. Tais textos devem ser enviados aos editores da revista, conforme os meios indicados nas normas para submissão.

Convocatoria de artículos para dossier temático sobre

GENERACIONES: juventud y vejez  en la sociedad moderna
Org.: Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luiz Antonio Groppo (Unisal/SP), Nildo Silva Viana (UFG/GO) e Revalino Antonio de Freitas (UG/GO)

La revista SOCIEDADE E CULTURA torna pública la convocatoria de artículos para el dossier temático “Generaciones: juventud y vejez en la sociedad moderna”, organizado por los profes. Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luiz Antonio Groppo (Unisal/SP), Nildo Viana (UFG/GO) Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO). La publicación está prevista para el volumen  v. 17, n. 1, 1º semestre de 2014.
Serán aceptados artículos escritos en portugués, inglés o español, que estén en conformidad con las normas de la revista (consultar en: www.revistas.ufg.br/index.php/fchf), y que se circunscriban al tema propuesto por los organizadores, así formulado:
Las generaciones se encuentran entre los temas en evidencia en la contemporaneidad y su concepto comporta múltiples significados. Bajo un “mirar” recortado en cada campo del conocimiento o institución, ellas adquieren contornos que les dan conformidad y permiten que sean identificadas, reconfiguradas, normatizadas, teniendo como centralidad temporal los ciclos de la vida. En la sociología, el esfuerzo teórico para aprehenderlas en cuanto objeto de investigación, ha sido considerable, con énfasis para las reflexiones teóricas de Karl Mannheim, que de cierto modo presenta a la sociología una conceptualización más próxima al conocimiento de esa campo científico. Sin embargo, el debate teórico y conceptual se encuentra abierto, exigiendo atención y rigor cada vez mayor, en la medida en la complejidad de la sociedad contemporánea insiere nuevos problemas, tornando más fluidos los recortes temporales de los ciclos de la vida. Este dossier, se propone continuar el saludable debate en curso, a partir de dos fases distintas del proceso generacional: la juventud y la vejez. El tema de la juventud viene ganando cada vez más espacio en las discusiones sociológicas. Al lado de la producción más antigua, nuevos abordajes e investigaciones pasaron a ser realizadas, principalmente a partir de los años 1960 para luego ganar impulso a partir de inicio del nuevo siglo, y que está relacionado con la movilización juvenil gestada en ese periodo. Las culturas y grupos juveniles, sus luchas y manifestaciones sociales, sus condiciones de vida y envolvimiento con otros sectores de la sociedad, tales como la escuela, medios de comunicación políticas públicas, son algunos de los temas específicos más desarrollados en esa área. La vejez es la más reciente de las generaciones a incorporarse en el campo de la investigación sociológica. Su irrupción resulta de la longevidad que ha caracterizado a la sociedad contemporánea en las últimas décadas, tornando visible la existencia de una generación hasta entonces al margen, y que ha ocupado un espacio creciente en la estructura etaria trayendo nuevas necesidades y exigiendo cuidados propios de un ciclo de vida que, en sí, evoca la preservación de los valores, la memoria y la tradición de una dada sociedad.

Las contribuciones deben ser enviadas directamente para los organizadores a través de los e-mails: nildoviana@ymail.com y freitas@cienciassociais.ufg.br. (o a través del sitio http://www.revistas.ufg.br/index.php/fchf)
Plazo para envío: 20 de noviembre de 2013.
Además de los artículos para el dossier, SOCIEDADE E CULTURA también recibe, en flujo continuo, otras contribuciones: artículos sobre diversos temas, notas de investigación, reseñas de libros relevantes en las ciencias sociales. Tales textos deben ser enviados a los editores de la revista, conforme los medios indicados en las normas de edición.




Call for papers for thematic dossier:
GENERATIONS: youth and old age in modern society
Org.: Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luiz Antonio Groppo (Unisal/SP), Nildo Silva Viana (UFG/GO) and Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO)

SOCIEDADE E CULTURA  (CULTURE AND SOCIETY) publicly announces a call for papers for the thematic dossier " Generations: youth and old age in modern society”, organized by the scholars Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luiz Antonio Groppo (Unisal/SP), Nildo Silva Viana (UFG/GO) and Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO)
The v. 17, n. 1, is expected to be released by early 2014.
Articles written in Portuguese, English or Spanish are accepted in conformity with the journal submission guidelines (available in www.revistas.ufg.br/index.php/fchf), in accordance to the theme proposed by the organizers, as follows:
The generations are among the topics highlighted in the contemporaneity and its concept involves multiple meanings. According to the "look" cut off from each field of knowledge or institution, they acquire contours that give them conformity and allow them to be identified, reconfigured, normalized, and having the life cycles as its temporal centrality. In sociology, the theoretical effort to understand it as an object of research has been considerable, with emphasis on the theoretical reflections of Karl Mannheim, which somehow presents to sociology a conceptualization closer to this scientific field. However, from the sociological standpoint this conceptual and theoretical discussion remains open, requiring attention and increasing accuracy, to the extent that the complexity of contemporary society brings new problems, making more fluid the temporal approaches of life cycles. This dossier aims to continue this salutary debate, from two different stages of the generational process: youth and old age. The Youth is gaining more and more space in sociological discussions. Along with the oldest production, new approaches and researches began to be carried out, mainly from the 1960s and gaining new momentum from the beginning of the new century, which is related to youth and student mobilization gestated during this period. Cultures and youth groups, their struggles and social manifestations, their living conditions and involvement with other sectors of society, such as school, media, public policy, are some of the more specific themes developed in this area. Old age is the most recent generation category to enter the field of sociological research. Its irruption is the result of longevity that has characterized contemporary society in recent decades, bringing to the fore the social existence of a generation that had been left, and it has occupied an increasing space in the age structure, bringing new needs and requiring proper care of a lifecycle which itself evokes the preservation of values, memory and tradition of a given society.

Contributions should be sent directly to the organizers via e-mail: nildoviana@ymail.com and freitas@cienciassociais.ufg.br (or at journal’s website http://www.revistas.ufg.br/index.php/fchf)
Deadline for submission: November 20th, 2013.
SOCIEDADE E CULTURA  (CULTURE AND SOCIETY) is an open access, peer-reviewed journal published by Faculdade de Ciências Sociais of the Universidade Federal de Goiás, Brazil.  S&C is published in both print and online versions.
In addition of papers for the dossier, the journal is continuously receiving other contributions: papers on various subjects, research notes, and reviews on relevant books in social sciences.  Papers must be sent to the journal editors according to submission guidelines (see at: www.revistas.ufg.br/index.php/fchf).

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Curso "Autogestão Social"



   
CEAS 2013
       
O curso de extensão à distância "Autogestão Social" será realizado de setembro a dezembro de 2013. O coordenador e professor responsável é Nildo Viana (UFG), contando com a colaboração dos professores Edmilson Marques (UEG), Leonardo Proto (UEG) e Maria Angélica Peixoto (IFG) e dos estudantes Alessandro Macedo Barbosa (UFG) e Gabriel Teles Viana (UFG). O curso será realizado sob forma virtual, utilizando a plataforma Moodle e seus recursos (fóruns, chat, arquivos, vídeos, etc.) e terá carga horária de 64 horas. O curso será dividido em quatro módulos. Abaixo mais alguns detalhes do curso:  

PROPOSTA DE CURSO DE EXTENSÃO À DISTÂNCIA:
Autogestão Social

Proponente: Dr. Nildo Viana

Período: De 02 de setembro a 20 de dezembro de 2013

Forma: através da Plataforma Moodle

Carga Horária: 64 horas.

Valor: R$ 50,00

Vagas: 60

Requisitos: Conexão com internet, disponibilidade de horário (4 horas semanais), domínio mínimo de computador (digitação, uso da internet).

Pré-Inscrição: de 06 até 20 de agosto de 2013.

Inscrição: de 20 de agosto até 02 de setembro.

Pré-inscrição, Inscrição e mais informações, clique aqui.

  Objetivos: O curso tem como objetivo proporcionar um debate em torno da autogestão social, buscando trabalhar o conceito de autogestão, algumas das principais teorias da autogestão, algumas das mais importantes experiências históricas, a relação entre autogestão e outras formas de organização, entre outras questões complementares e derivadas que são importantes para compreender esta temática.

  Justificativa: A autogestão é um tema amplamente discutido nos dias atuais, sob perspectivas diferentes. Para alguns, a autogestão é uma forma de gestão de empresas; para outros é uma forma cooperativa na qual os trabalhadores gerem sua produção; já outros pensam que é uma forma radicalmente diferente de organização social, um projeto de sociedade pós-capitalista. O estudo e o aprofundamento do debate em torno destas questões se tornam fundamentais, pois sem uma consciência da realidade qualquer atividade política pode se revelar trágica, ou seja, ela pode ter um objetivo, mas o meio que se busca para atingi-lo acaba produzindo outra coisa que não se esperava. Daí a necessidade de aprofundamento do debate sobre as questões fundamentais de nossa época, entre as quais a questão da autogestão social.  

  Metodologia: o curso se realizará em 04 meses e será realizado através de exposição e espaço para debates com os participantes sob forma virtual, através da Plataforma Moodle. Nesse ambiente virtual, diversos recursos serão utilizados, tais como textos, vídeos, fóruns de debate, chats, wiki, entre outras. O curso será ministrado a partir de uma bibliografia básica que será objeto de discussão em fóruns e chats, tendo quatro módulos, discutindo eixos temáticos relacionados e complementares. A equipe executora será composta por um professor, responsável geral, e mais... professores que irão contribuir nas discussões e apoio aos estudantes, além de incentivar o debate e outras formas de atuação. A avaliação será realizada através de quatro questionários para cada módulo ou um ensaio de dez a vinte laudas, a ser escolhido pelo aluno.  

 MÓDULOS:

·      Teorias da Autogestão

 ·      Experiências Autogestionárias.

 ·      Autogestão e outras formas de organização.

 ·      Organização dos Trabalhadores, Conselhos e Autogestão Social.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Socialização do Povo Muçulmano

O Islã é a religião que mais cresce no mundo, e estima-se que no Brasil existem entre 70 a 300 mil muçulmanos. São vários os fatores de migração muçulmana; a família de Mariam Habash, por exemplo, veio por motivo de fuga dos conflitos árabe-israelense. Nascida na Palestina, Mariam veio recém-nascida, com seus pais e sua irmã, e desconheciam das tradições cristãs do ocidente. Extremamente tradicionais, tiveram dificuldade em se adaptar aos costumes da sociedade brasileira. Não obstante, algumas tradições consideradas obrigatórias por sua religião foram mantidas.

Mariam pediu para que não fosse exposta, então a entrevista foi feita com sua irmã, Najat Marouf Habash Hammad, muçulmana nascida no Brasil.

·        Como seus pais lhe contam a vida na Palestina?
Sempre que meus pais falavam da Palestina eu imaginava tudo diferente. Mas quando fui pra lá, realmente conheci a verdadeira Palestina, super encantadora. Tudo realmente diferente do brasil e dos nossos costumes. Por exemplo, as mulheres lá tem mais valor que as brasileiras. O marido é obrigado a dar tudo à ela, mesmo que a mulher trabalhe fora, o dinheiro dela não é obrigatoriamente destinado à casa. O marido tem que “bancar” tudo. Lá, por segurem muito o islamismo, nem homens e nem mulheres conhecem o adultério, por ser pecado. Raramente vemos ladrões pois as penas são crueis e realmente são castigados.

·         Em que época vieram? Por que?
Meus pais vieram no ano de 1968, pois antigamente eram muito pobres e não havia muitos empregos, o fato de haver muitas disputas de terras na região também ajudou.

·         Você estudou em escolas especificamente para muçulmanos?
Estudei em escolas normais, pois não havia escolas para muçulmanos ainda.

·         Qual foi primeira empressão da escola normal? Como lidavam com seus costumes?
Era meio complicado, meus pais não aceitaram que tivéssemos amigos, meninas não podem conversar com rapazes, não podem se misturar.Sabíamos que um dia íamos nos casar com árabes e nunca com brasileiros. Nunca iríamos namorar com brasileiros(risos). Às vezes nossas amigas não entendiam isso , já outras achavam normal. Tinham rapazes que até respeitavam e achavam interessante.

·         Uma hora ou outra você teria que lidar com os costumes dos brasileiros, quando tivesse contatos fora da família, como foi essa adaptação?
Nosso contato foi super natural e normal. Amamos o Brasil e respeitamos tudo. Mesmo nossos costumes sendo diferentes, respeitamos e somos respeitados.

·         Hoje, qual a sua relação com o Islamismo? Casamento, trabalho, orações... É tradicional ou as culturas se mesclam?
Hoje sigo o Islã 100%, dou graças a Deus por meus pais nos terem criado nessa religião e terem nos ensinado os costumes árabes, pois chega uma hora que você crece e compara os dois costumes e se reconhece em um. Muitos resolveram seguir os costumes brasileiros, como minha irmã Mariam Habash, mas eu não. Sigo e tenho muito orgulho de ser árabe. Casei com um árabe muçulmano, tenho filhos e até me mudei para a Palestina. Estou aqui à passeio, mas amo lá. Cheguei a me graduar aqui, passei em três concursos públicos, cheguei a lecionar por mais de 3 anos, mas optei por morar na Palestina.

·         Se tiver algo que ache interessante para nossa reportagem, comente sobre.
É interessante as pessoas conhecerem vários costumes, tradições e religiões e depois escolher um, por livre e espontanea vontade, nunca por pressão. Eu me reconheci no Islã e sifo por convicção. E nunca as pessoas julgarem as outras pelo que veêm na TV, pois a TV “mente” (conheçam antes de julgar).



Mesmo com a ausência das respostas da irmã mais velha, por motivos de pessoalidade, podemos afirmar que houveram dois tipos de processos de socialização, um em que Mariam veio ao Brasil e se adaptou à forma de vida do país e às suas tradições, enquanto Najat decidiu por voltar ao país de origem e segue fielmente o Islamismo.



Por: Ana Paula Holzbach, Aymée Torres, Caroline Alvares, Fausto André, Laura Célia Carvalho, Letícia Antoniosi. Matheus Filipe e Tiago Madureira.


Socialização Universitária

Ailton Sousa, Denise Pires, Érica Jeffery, Natália Esteves e Pedro Ferreira






Felicidade!
Passei no vestibular
Mas a faculdade
É particular

Particular!
Ela é particular
Particular!
Ela é particular

Livros tão caros
Tanta taxa prá pagar
Meu dinheiro muito raro
Alguém teve que emprestar

O meu dinheiro
Alguém teve que emprestar
O meu dinheiro
Alguém teve que emprestar

Morei no subúrbio
Andei de trem atrasado
Do trabalho ia prá aula
Sem jantar e bem cansado
Mas lá em casa à meia-noite
Tinha sempre a me esperar
Um punhado de problemas
E criança prá criar

Para criar!
Só criança prá criar
Para criar!
Só criança prá criar

Mas felizmente
Eu consegui me formar
Mas da minha formatura
Não cheguei participar
Faltou dinheiro prá beca
E também pro meu anel
Nem o diretor careca
Entregou o meu papel

O meu papel!
Meu canudo de papel
O meu papel!
Meu canudo de papel

E depois de tantos anos
Só decepções, desenganos
Dizem que sou um burguês
Muito privilegiado
Mas burgueses são vocês
Eu não passo de um pobre coitado
E quem quiser ser como eu
Vai ter é que penar um bocado

Um bom bocado!
Vai penar um bom bocado
Um bom bocado!
Vai penar um bom bocado

(Martinho da Vila, “O Pequeno Burguês”)


Ao longo deste primeiro semestre de 2013, a turma de calouros do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (UFG) embarcou em uma montanha-russa de acontecimentos. Não bastasse a própria entrada na universidade em si, os novos rostos, as novas amizades, os novos professores, a despedida do Ensino Médio, o distanciamento dos amigos que escolheram outros cursos ou que não conseguiram êxito no vestibular, a nova rotina matutina, o novo trajeto no caminho de casa até o campus, enfim, não bastasse todo esse conjunto de mudanças, esses jovens aspirantes a jornalistas vivenciaram: uma reestruturação do Centro Acadêmico; eleições para coordenador do curso; eleições para reitor da universidade; discussões acerca de eventuais mudanças na grade curricular do curso; a mudança do nome da faculdade, que deixará de se chamar Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia (FACOMB) para se chamar Faculdade de Informação e Comunicação (FIC); protestos contra o aumento das tarifas do transporte público em Goiânia; a solidariedade e o engajamento dos colegas nas manifestações contra o aumento da tarifa do transporte público, alguns tendo sido feridos e até mesmo presos em função dos embates contra as tropas de choque das polícias; manifestações públicas nacionais que levaram milhões às ruas – movimento semelhante, mas ainda mais arrebatador do que o das “Diretas Já” de 1984, quando a maioria desses calouros nem sonhava nascer. Some-se a tudo isso os altos e baixos das disciplinas que cursaram neste semestre, o desânimo de alguns, a desistência e posterior desligamento de outros. Como estaria o imaginário desses calouros? Como entender o seu comportamento diante de todas essas mudanças? Os parágrafos e diálogo a seguir procuram munir o leitor para responder a essas e outras perguntas, provocando-o, levando-o à reflexão e a novos questionamentos a respeito da problemática da socialização de calouros no contexto do mundo universitário.

Alunos do primeiro período de Jornalismo da UFG em momento de
socialização durante visita à Fazenda Babilônia, Pirenópolis.

Ensino Fundamental, Ensino Médio, Ensino Superior e mercado de trabalho. Antiguidade Clássica, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. Propositadamente ou não, a nomeação utilizada na categorização oficial das diferentes etapas da educação brasileira é, sim, valorativa. Uma das extrapolações possíveis seria a analogia entre tal classificação e aquela comumente aplicada à divisão da História da humanidade. Do Ensino Fundamental, extraem-se os fundamentos greco-romanos do pensamento intelectual do Ocidente. Ao atravessar o Ensino Médio, ilude-se a adolescência com as sombras de um pensamento pronto e utilitário, cujo objetivo único é o sucesso no competitivo vestibular. Chegando ao Ensino Superior, convida-se a juventude a trazer à luz o seu conhecimento encaixotado, desafiando-a a pensar por si mesma. Sapere aude! Um período de transição por excelência, o Ensino Superior prepara o jovem para o cobiçado mercado de trabalho. Fim da História: contemporâneos da vida adulta, a formação de uma família, a conquista de trabalho, bens e um relativo sucesso profissional mostram-se como o fim da linha socializante de todo Homo sapien sapiens inserido em um contexto capitalista.

Alegadamente o único ser vivo que tem consciência de sua própria consciência, o ser humano segue o roteiro acima descrito sem muitos questionamentos. A clássica tríade “Quem sou? De onde vim? Para onde vou?” soa como um estranho sussurro aos ouvidos do homem ensurdecido pelos ruídos das máquinas. Sua visão está anuviada pela poluição das chaminés e escapamentos. Suas mãos deixaram o calor do abraço fraterno e da luta que move a História: estão por demais ocupadas a bailar pela frieza dos teclados, curtindo e compartilhando um entretenimento imobilizador. Seu gosto é ditado por outrem. Seu faro não mais detecta a mais mal cheirosa das injustiças. Forçado a perpetuar sua menoridade kantiana, o homem rende-se à reprodução de uma lógica que não lhe é própria, mas que se oferece com tentadora e, por vezes, irresistível naturalidade. Rende-se, sim, mas não sem dar-se à batalha: o conflito, nesse contexto, é inevitável; a dúvida, esclarecedora; o questionamento, libertador.

Um cenário nada esperançoso, cujos ares naturalizantes provocam certa revolta em degluti-lo. Adicto capitalista, o homem contemporâneo prefere ceder à alucinógena sensação de conforto, ordem e paz, a ter que se rebelar contra a repressiva e coercitiva lógica que o algema, que o coage. A abstinência emancipadora parece um caminho pedregoso e distante, não mais uma alternativa concreta à competição, à mercantilização e à burocratização reinantes no pensamento moderno. Quem estaria disposto a romper os grilhões socializantes da infantilizadora lógica da aprovação/reprovação? Quem estaria disposto a expor-se à ridicularização, à crítica, à condenação, ao castigo, ao ostracismo e até à violência física para contestar tais lógicas? Parece ainda haver esperança, haja vista as manifestações públicas de descontentamento que se desencadearam nas últimas semanas no Brasil, levando milhões a inúmeras capitais e cidades interioranas brasileiras. Tal esperança parece poder ser depositada na juventude, especialmente na juventude universitária, aquela que, apesar de render-se à lógica competitiva do vestibular, dispõe-se a pensar “fora da caixa”, numa reinvenção iluminista diária. Relativamente distante do embebecimento provocado pela inebriante compulsão consumista formadora de patrimônios faraônicos, a juventude atravessa o pântano existencialista e potencialmente transformador da lógica socializante capitalista.

Em 2013, cerca de 7 milhões de jovens brasileiros aspiram a vagas universitárias. Uma mistura heterogênea composta por fases mais ou menos amadurecidas, mais ou menos politizadas, mais ou menos socializadas, por vezes homogeneizadas como massa, massa de modelar, massa manipulável. Cada um deles, por influências que lhes são histórico-particulares, está mais ou menos apto a vencer a sedução axiológica do funk, do arrocha, do sertanejo universitário, do estrelismo fugaz das redes sociais. Mais ou menos reprimidos/coagidos pelos agentes da socialização (família, escola, vizinhos, meios de comunicação, leituras, etc.), os jovens que obtiverem “sucesso” no vestibular adentrarão as portas da universidade – um mundo desconhecido, um novo mundo a descobrir e explorar/povoar. Na universidade, renascem os seus questionamentos da adolescência, rasga-se o véu que os separa de sua sede epistemológica, sacia-se a sua fome de saber, ilumina-se o que estava à sombra do tabu e das proibições, canaliza-se a sua agressividade para os protestantes movimentos politizadores e sociais. “Carpe, carpe” – urge o sussurro dos poetas mortos, dos que idealizaram e dos que idealizam a resistência, a revolução, a emancipação.

No samba axionômico de Martinho da Vila, entram em conflito o mito da felicidade do vestibulando (aprovação no vestibular) e sua dura realidade social. O conflito do jovem que entra em uma universidade, mas que, paradoxalmente, precisa pagar para permanecer ali, para garantir a pretensa universalidade da instituição. O conflito do jovem que não tem dinheiro para pagar o que, na verdade, lhe seria um direito, e que, compulsoriamente, vê-se obrigado a uma vida de endividamento. Endividamento não só para pagar as mensalidades, mas também para saldar as contas de casa, para sustentar a prematura paternidade. Endividamento e trabalho, emprego, ou melhor, sub-emprego. Fragilidade e dependência diante de uma realidade de subúrbio carente e de um transporte público decadente. Ausente na formatura, mais uma vez em função da falta de dinheiro, não teve a honra de receber o suado diploma das mãos do diretor. Tantas decepções e desenganos para, uma vez formado e tendo alcançado alguma estabilidade financeira/profissional, ser rotulado como “burguês” ou “privilegiado”. Mas, ao final do poema, as particularidades de sua história o levam à auto-reflexão e consequente auto-afirmação reconhecedora da realidade socializante capitalista: “Eu não passo de um pobre coitado / E quem quiser ser como eu / Vai ter é que penar um bocado”.

Estaria o jovem universitário preparado para explorar esse novo mundo? Quais as dificuldades que ele encontraria diante da realidade socializante em que se insere? Quais os percalços teria ele enfrentado em sua trajetória “atlântica” rumo ao além-mar universitário? Que pressões ainda sofre por parte de seu núcleo familiar? Estaria ele sujeito a pressões por parte das autoridades universitárias? Sua identidade estaria ameaçada pela repressão/coação dos colegas universitários? Sua afeição por este ou aquele grupo determinaria sua trajetória estudantil? Teria ele escolhido “o curso certo” ou, refraseando o clichê, o curso de seu rio-vida estaria realmente de acordo com aquilo que lhe é próprio e natural enquanto indivíduo? Ou suas escolhas teriam sido resultado de repressões/coações, alegadamente atribuídas como “naturais” ou “certas”, servindo, na verdade, à lógica familiar (e, por extensão, à lógica capitalista), castrando sua autonomia, suas opções, suas liberdades individuais? Seria a universidade apenas um ensaio para o que há de vir, isto é, uma série de repetições mecanizadoras que preparariam o jovem para o seu futuro como profissional? Ou a universidade teria esse papel revelador e libertário?

Socialização na UFG

O processo de socialização trabalha a relação indivíduo-sociedade de forma contínua e dinâmica, ou seja, as ideias e valores estabelecidos pelo coletivo passam a constituir o sujeito. Tal elo se dá nos primórdios da infância, constituindo a socialização básica. Entretanto, ao longo da vida, ao se deparar com situações novas e diversas que demandam adaptação, o indivíduo inicia o processo de ressocialização, que se relaciona à preparação para carreira profissional e responsabilidades sociais. A juventude, considerada o “tempo das mudanças”, é o momento de arriscar e experimentar escolhas, cabendo à ida para universidade, um importante desafio na vida do ser humano.

Os primeiros contatos com a universidade são de grande valia para a formação acadêmica do calouro, já que estudos revelam que estudantes que apresentam maior facilidade de integração à vida universitária, têm mais chances de crescimento intelectual e pessoal se comparados àqueles que encontram dificuldade de adaptação à nova realidade. Assim, ajustar-se à academia participando de atividades sociais e desenvolvendo relações interpessoais satisfatórias permite uma socialização com os indivíduos desse novo contexto, corroborando com o professor Nildo Viana, que afirma “que a socialização é o processo no qual, por um lado, o indivíduo se torna um ser social e, por outro, se torna um indivíduo integrado em determinadas relações sociais”.

O acesso à universidade implica em uma série de transformações nas redes de amizade e de apoio social dos jovens estudantes, competindo à comunidade acadêmica a ação de oferecer atividades que promovam a socialização entre os alunos e a integração deles no meio universitário.

Na FACOMB, além das atividades acadêmicas inerentes à apresentação das disciplinas aos ingressos, foram oferecidas inúmeras oportunidades de entretenimento e informação a estes durante a “Semana de Integração do Calouro”. Apresentação do perfil das profissões, encontros com membros das entidades estudantis, conversas entre estudantes, professores e coordenadores dos cursos, foram algumas das ações desenvolvidas. O tradicional “Show de Calouros” encerrou a programação, proporcionando a convivência harmônica entre calouros e veteranos dos cursos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Relações Públicas, Biblioteconomia e Gestão da Informação.

Henrique Gebran, acadêmico do 1º período de Engenharia Mecânica da UFG, considera o habitual trote como o primeiro momento de integração dos alunos ao ambiente universitário: “o trote é um momento de socialização em que conhecemos nossos veteranos e alguns dos colegas com quem iremos conviver nos próximos anos”, afirma. Apesar de relatar não ter enfrentado dificuldades durante a fase de socialização na universidade, o entrevistado declara que a liberdade proporcionada por esta, e antes controlada no ensino médio, ajuda no amadurecimento dos estudantes: “Essa questão nos permite fazer muitas escolhas, e todas têm consequências, com isso, aprendemos a tomar decisões e nos tornarmos mais responsáveis”.

A promoção de eventos que permitem a interação entre unidades acadêmicas distintas, como festas, ensaios de bateria e treinamento/competição em diversas modalidades esportivas é rotineira. A mãe de Henrique, afirma que a família além de apoiar a nova rotina do estudante, deve ter curiosidade em conhecer as relações vividas dentro do ambiente universitário “existe preocupação porque ele está entrando em um ambiente novo”, demonstrando assim uma ligação entre o ambiente universitário e o núcleo familiar.

A socialização entre alunos e instituição é o que faz a universidade, já que o indivíduo passa a ser instrumento de manutenção e transformação da socialização, pois o socializado é também quem socializa.

- VIANA, Nildo. Introdução à Sociologia. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2011. p. 105 - 118.
- COSTA, Fabiano. Enem 2013 terá 7,1 milhões de candidatos, diz Mercadante [Internet]. Brasília,G1. Publicado em: 07/06/2013. Visitado em: 29/06/2013. Disponível em: http://g1.globo.com/educacao/enem/2013/noticia/2013/06/enem-tera-71-milhoes-de-candidatos-diz-mec.html