terça-feira, 2 de julho de 2013

Karl Marx e a Obsolescência Programada

                 *Por:Ana Carolina Medeiros, Anna Carolina Mendes, Bruna Oliveira, Izabella Veronica e Milleny Cordeiro

        Karl Marx (1818-1883) foi um pensador alemão que ficou famoso por estudar e perceber, como nenhum outro, o modo de produção capitalista e o regime de acumulação de capital. Em “O Capital” de 1867 (obra esta que ficou inacabada), ele analisa a produção capitalista e as formas de extração de mais-valor. Marx acreditava que o trabalho era um meio pelo qual os indivíduos conseguem satisfazer suas necessidades básicas de sobrevivência, e que a divisão de classes estabelece-se por meio da separação entre quem produz riquezas (classe produtora) e quem usufrui de tais riquezas (classe exploradora).
          Ele gerou conceitos a respeito do que é valor do trabalho e mercadoria. De acordo com Marx, o processo de produção de mercadorias é autônomo em relação às vontades humanas, pois o trabalhador realiza um trabalho alienado (não-consciente). Para ele, o ser humano só estará exercendo sua própria essência quando realizar o trabalho não-alienado (teleológico). No “Manisfesto do Partido Comunista” de 1848, Marx e Engels revelam que “Com a extensão do maquinismo e da divisão do trabalho, o trabalho perdeu todo caráter de autonomia e, assim, todo atrativo para o operário. Este torna-se um simples acessório da máquina. Só lhe exigem o gesto mais simples, mais monótono, mais fácil de aprender. Portanto, os custos que o operário gera limitam-se a aproximadamente apenas aos meios de subsistência de que necessita para manter-se e produzir-se. Ora, o preço de uma mercadoria – e, portanto, também do trabalho – é igual a seus custos de produção. Por conseguinte, à medida que o trabalho se torna mais repugnante, o salário decresce”.
         Com a cultura de produção de mercadorias atual, na qual o consumismo é buscado a qualquer custo, uma nova concepção de produção é criada: a “Obsolescência Programada”- diminuição da vida útil de produtos com o intuito de manter o consumidor comprando. Uma frase publicada em uma revista de publicidade de 1928 nos Estados Unidos revela o que move essa nova concepção: “Um artigo que não se desgasta é uma tragédia para os negócios”. Com isso, e no contexto de Globalização atual, fica fácil compreender o alcance temporal do Marxismo: “Pressionada pela necessidade de mercados sempre mais extensos para seus produtos, a burguesia conquista a terra inteira. Tem que imiscuir-se em toda a parte, instalar-se em toda a parte, criar relações em toda a parte. Pela exploração do mercado mundial, a burguesia tornou cosmopolita a produção e o consumo de todos os países” (in “Manifesto do Partido Comunista”).
Professor Flávio Munhoz
   Tendo este recorte da teoria Marxista como parâmetro de análise,na entrevista que segue, os Professores Flávio Munhoz Sofiati (Dr. em Sociologia pela USP,2009) e Francisco Chagas Evangelista Rabelo (Dr. em Sociologia pela USP,1992) responderam a perguntas que focaram na concepção de Karl Marx sobre mercadoria e valor do trabalho/trabalhador,fazendo uma ponte com o conceito de Obsolescência Programada e cultura de consumo atual,além do enfoque na Globalização e na ideia de luta de classes.
  
Professor Francisco Chagas








        



    Abaixo,a entrevista na íntegra.
              
          1.  Com o conceito de Globalização em mente, você acredita que as barreiras existentes entre as classes tornaram-se mais frágeis e fáceis de serem transpostas?

Flávio: - Não, na verdade com a globalização elas se fortaleceram, porque você tem uma unidade internacional entre as classes que controlam e administram o capital, então isso possibilitou, por exemplo, uma flexibilização do trabalho, nas relações de trabalho, onde você complexifica essas relações e possibilita inclusive o aumento da forma de exploração, que possibilita a geração do capital. 

Francisco: - Eu acho que é meio ilusório pensar que essas barreiras se tornem mais frágeis, né?! Na verdade elas aparecem mais frágeis, mas eu acho que ela aprofunda esse abismo que existe entre as classes, que não é apenas uma questão de renda, ou de distribuição de renda, é isso e passa,também,por isso. Mas, a globalização se insere nessa reprodução, no processo de acumulação de capital. E com isso, a riqueza aumenta de forma fabulosa, entre as pessoas, os empresários, os donos do capital, ou aqueles que necessariamente não investiram diretamente em empresas, mas jogaram o seu dinheiro no mercado financeiro...você não consegue dimensionar o nível de riqueza dessas pessoas. Alguma coisa do consumo sofisticado, sofisticadíssimo, talvez te dê uma ideia do nível de riqueza dessas pessoas, mas fica sempre muito aquém. Você tem um barco, um avião particular, ou uma mansão, ou apartamento em Paris, Nova York, numa cidade da Alemanha: Frankfurt, e por aí afora,Itália, à beira mar, nas montanhas... isso é apenas a ponta do iceberg. Bom, é verdade que há uma mobilização, não só da chamada elite, ou entendida aí como a classe dominante (a classe econômica dominante), mas a globalização também proporcionou uma mobilidade das classes trabalhadoras, às vezes mão de obra pouco especializada, mas também de mão de obra altamente especializada, permitiu isso e está permitindo. E essa migração muitas vezes também, proporciona um aumento de renda e ás vezes também uma sofisticação de consumo com aumento de renda. E aí você diz – bom, então as barreiras estão flexíveis, fluídas, mas acho que os momentos de crise põe à nu essa ideia, essa ilusão que é criada. Bom, e o que eu digo também, gostaria de sublinhar que não é só ilusão, quer dizer, um trabalhador aqui do Brasil, pouco especializado – oh, essa mão de obra pode ser muito necessária num país desenvolvido e aquilo proporciona um nível salarial muito maior, lá. E o que permite um nível de poupança, coisa que não fazia aqui no Brasil, permite um nível de poupança. Então veja, isso significa que as barreiras se tornaram flexíveis? Não. O que houve foi uma mobilidade vertical que permitiu uma cesta de consumo um tanto mais volumosa, e às vezes até se tornando proprietários, pequenos proprietários, micro empresários e etc. E enquanto isso se deu, os detentores do capital e suas várias manifestações observaram um crescimento muito grande. Então digamos, houve uma certa flexibilidade,onde o que é rico se tornando mais rico, e em alguns casos trabalhadores que tinham um nível de renda baixo aumentaram seu nível de renda, mas a estrutura de classe permaneceu.


2.  Na sua visão, o ideário da classe dominante tornou-se mais sutil e difícil de ser identificado? Por quê?

Flávio: - Não se tornou mais difícil de ser identificado, porém mais sutil porque ele se aprimorou nessas relações discutidas, as fronteiras entre esses países foram superadas, na verdade o próprio termo “globalização” está sendo discutido na academia, na verdade o que nós temos de fato é uma mundialização do capital. Então, tem-se uma flexibilização das fronteiras de relações econômicas de mercado entre os países, mas essas relações continuam muito desiguais, principalmente entre com relação aos países do hemisfério norte em relação aos países do hemisfério sul. Está se complexificando, até mesmo aqui no hemisfério sul, a gente já tem relações bilaterais entre países, como por exemplo, Brasil e China. Mas são relações que mantém a lógica de desigualdade nas trocas econômicas, onde você tem, por exemplo, a venda de produtos de alto padrão tecnológico sem a troca de informações, sem a partilha de tecnologia desenvolvida, então, por exemplo, em alguns casos específicos o Brasil até mesmo já faz isso, com relação aos países latino americanos, como no caso da produção de aeronaves. Nós temos a EMBRAER, que é a terceira melhor empresa, enfim, é a empresa mais desenvolvida no mundo de produção de aeronaves, então nós temos uma relação com os países latino americanos, da mesma proporção que os Estados Unidos tem com o Brasil, de desenvolver produtos de alta tecnologia sem passar o conhecimento tecnológico desenvolvido naquele produto. Nesse sentido você mantém as relações de desigualdade, no Brasil se tem a EMBRAER, mas o que basicamente mantém a nossa balança, na exportação, são os produtos primários, soja, enfim, são produtos de baixa densidade tecnológica e se for pensar do ponto mais geral, são os principais produtos de exportação do país. O Brasil é um grande exportador de café, mas o maior exportador de café do mundo é a Alemanha, que exporta café solúvel, ou seja, compra da Colômbia, por exemplo, que é uma das maiores exportadoras de café do mundo, em natura, e ela industrializa esse café, ela agrega valor a ele. Então em termos de controle de valor, a Alemanha é o maior exportador de café hoje no mundo, não é a Colômbia, porque a Alemanha compra da Colômbia, entre outros, e agrega valor a esse produto, industrializando ele e transformando em café solúvel, por exemplo, e nesse processo nas relações internacionais ela acaba mantendo sua hegemonia. Então, o próprio conceito de globalização é um conceito em debate na academia, o que nós temos na verdade é uma mundialização do capital, mesmo porque, se vocês forem para outros países hoje, Estados Unidos ou a Espanha, precisa-se de vistos. Em determinados países é muito difícil ter um visto, as relações econômicas de indústrias brasileiras possuem muitas barreiras, com relação ao estabelecimento no mercado norte-americano. No caso da produção de suco de laranja, por exemplo, a Cutrale, que é uma empresa brasileira, que está estabelecida nos Estados Unidos, enfrenta uma série de barreiras para vender seu produto dentro do mercado interno norte-americano, diferentemente dos produtos norte-americanos que chegam ao Brasil, as facilidades são muito maiores.

Francisco: - Será? Eu devolveria a sua pergunta fazendo a outra, quer dizer, será?! Se talvez a própria classe dominante muitas vezes é sensível, desenvolve o ideal que eu chamaria de civilidade, respeito às diferenças e etc. Mas por outro lado, está muito claro também que eles não abrem mão do controle da riqueza que eles têm. Então nós podemos compartilhar algumas ideias igualitárias, e às vezes até libertais: eles podem compartilhar porque pra eles não tem custo nenhum.O custo que eu to dizendo não é o desembolso de alguma contribuição que possa dar, porque aquilo pra ele é insignificante diante da riqueza acumulada. Então, esse ideário de igualdade, de civilidade daqui da esfera civil mesmo,pode ser compartilhado sem comprometer de forma decisiva os interesses da chamada classe dominante, é assim que eu entendo.

            3.  Para Marx, o que adiciona valor a uma mercadoria é o trabalho. Este valor continua presente após a inserção de tecnologia no processo produtivo? 

Flávio: - Sim. O que é importante levar em consideração com relação ao Marx? Quando ele fala que o que dá valor ao capital é o trabalho, ele está dizendo que é um trabalho específico que envolve uma relação, o capital econômico é considerado como valor. Mas do ponto de vista sociológico, o capital é uma relação social, que é estabelecida entre dois grupos sociais específicos de classes distintas, que são divididos em classes a partir do local no qual estão inseridos no sistema de produção. Então Marx vai dizer que existem duas classes antagônicas, não são as únicas, mas são as duas antagônicas, que são os burgueses, ou seja, os capitalistas, os empresários, utilizando os termos mais atuais, os donos dos meios de produção e os possuidores da força de trabalho. Então vamos tentar exemplificar, o que são os meios de produção? São as máquinas e os insumos. Uma fábrica de produção de suco de laranja enlatado envolve a produção da laranja e o maquinário, que transformam aquilo que é natural em produto industrializado. Só que do outro lado do processo de produção se tem a força humana, que são os que possuem a força do trabalho. Nessa relação, se poderia pensar que é uma relação entre burguesia e o proletariado, o empresário e o trabalhador, mas Marx vai mostrar que há uma relação de parceria. Na verdade, o trabalhador em geral produz mais valor do que ele recebe na forma de salário e, devido a isso, há a geração de capital, que é basicamente pensada na lógica do lucro, juros e da renda da terra. No caso da empresa, o lucro; no caso do capital financeiro, a bolsa de valores, enfim, os juros; no caso do trabalho rural, a renda da terra. Então é o valor que o trabalhador produz a mais que irá gerar a produção de capital. Em geral, se ele trabalha oito horas e ganha cem reais por essas oito horas, os cálculos matemáticos mostram que essas oito horas que ele trabalhou gerou em média mil reais em valor. O capitalista fica, destes mil reais, com novecentos reais e paga cem reais para o proletário em forma de valor, então há uma exploração, a partir da extração daquilo que Marx vai chamar na sua obra de mais-valia. O que é a mais-valia? É essa diferença que se tem na hora de pagar o salário do trabalhador e o que ele de fato produz e gera lucro pro capitalista. Há dois tipos de mais valia, a mais valia absoluta e a mais valia relativa. A absoluta é o tipo de exploração ao trabalhador que existia principalmente no início do capitalismo, em que se extrai mais valia aumentando as horas de trabalho do operário. Hoje se tem, basicamente na industrialização brasileira e mundial, o tipo de mais valia relativa que, ao invés de investir em mais horas de trabalho para explorar o trabalhador, investe em tecnologia com melhores maquinários, com melhor estrutura de produção, que faz com que o trabalhador produza mais com menos horas de trabalho. Então vou dar um exemplo : não sei se vocês já usaram algum produto da Lupo (agora o Neymar está aí fazendo propaganda), tem cuecas, meias, lingeries; a Lupo, nos anos 90, tinha 4.000 funcionários. Era uma empresa que trabalhava mais com mulheres, então quem visitou a Lupo nos anos 90 encontrou um galpão enorme com um monte de maquininhas pequenininhas, com duas ou três mulheres operando. Quem vai para a Lupo agora, entre 2010 e 2013, não encontra mais 4.000 funcionários, já não tem mais aquele galpão com maquininhas pequenininhas com duas ou três funcionárias juntas. Na verdade você tem um grande galpão, mas com grandes maquinários e do lado uma salinha de computadores, onde basicamente a produção é informatizada, e você tem meia dúzia de funcionários trabalhando na informática e conduzindo as máquinas automaticamente, e meia dúzia de funcionários tentando ajustar o que sai da linha de produção. Então, percebe-se que a Lupo, dos anos 90 pra cá, triplicou a sua produção e a sua venda no mercado. Como ela fez isso? Investindo em tecnologia. Então ela deixou de lado as máquinas que eram obsoletas, de produção de meia, e investiu em tecnologia, comprou um maquinário, que produz muito mais meias por hora/unidade, com menos funcionários. Então esse é o tipo de mais-valia relativa, ou seja, é o investimento na tecnologia que possibilita a exploração do trabalhador com menos horas de trabalho dele, e isso aumentou cada vez mais o desemprego. Trouxeram uma empresa que antes trabalhava com 4000 funcionários e hoje com 1000, e esses 3000? Foram para o mercado informal, para aquilo que o Marx vai chamar de exército industrial de reserva.

Francisco: - É... não. Aí permanece, não é. Mas na linha da ideia do trabalho morto, do trabalho que foi agregado e que hoje você não vê.E aí você precisa trabalhar com a ideia da mais valia absoluta e relativa.

          4. Marx acreditava que a divisão social do trabalho é que cria as relações desequilibradas entre possuidores dos meios de produção (classe dominante) e detentores da força de trabalho (classe dominada). Com a cultura de produção de mercadorias visando um consumo exacerbado e acelerado, é possível visualizar uma nova classe mais ou menos homogênea (classe consumidora)?
     

 Flávio: -Não, na lógica do Marx não. Já na lógica de outros pensadores é até possível pensar isso aí, por exemplo a partir da perspectiva de Weber, que vai dividir a sociedade em extratos sociais. Mas, na lógica do Marx, a classe social não é dividida a partir da lógica do consumo e sim, na lógica da produção. É impraticável pensar em uma classe consumidora, como se fala hoje em classe C (a nova classe média). Ela é pensada em uma lógica de uma classe que passou a consumir mais produtos específicos, da linha branca, de eletrodomésticos, financiamento de casas e também carros e de imóveis não é?! Do ponto de vista de Marx, isso é impraticável, pois ele vai pensar as classes sociais a partir da produção do homem e não do consumo do mercado. O que você tem, na verdade, é uma homogeneização de um estilo de consumo presente no contexto contemporâneo, que passa pela lógica da financeirização.


  Francisco:-O sistema social experimenta uma grande transformação, até que ponto essa transformação implica na geração de uma classe de consumidores? E aí, pra que você entenda que isso ocorreu ou está ocorrendo seria preciso você fazer uma alteração no próprio conceito de classe, formulado por Marx, pelos marxistas, que colocavam que a existência das classes era determinada pela posição da produção. Então penso que em algumas esferas da vida social há elementos pra se pensar numa possível classe de consumidores ,mas não no geral. Na medida em que prestadores de serviços conseguem um nível de renda muito alto, que permite um consumo recorrente e crescente, em que esfera da vida social isso ocorreria? Aí nós teríamos de fato que ter dados muito mais contundentes e muito mais sistematizados para dizer que isso de fato está ocorrendo, porque pode ser apenas ideias que estão correndo, mas ideias que não expressam de fato o movimento social, a dinâmica da sociedade.

       5. Marx discorre sobre a exploração na sociedade capitalista usando como base a mercadoria.Tendo em vista que a obsolescência também é voltada para a mercadoria,é possível traçar um paralelo?
      
      Flávio: - Por que o Marx começa a sua obra chamada “O Capital” com o primeiro capítulo intitulado “A mercadoria”? Ele tentou organizar a sua obra de forma pedagógica para que as pessoas entendessem. Então ele começa explicando como era a mercadoria,para mostrar como ela surge no mercado industrial. E um dos aspectos dessa mercadoria é a questão da sua forma valor, ou seja, a mercadoria, antes de tudo, também é uma forma valor, assim como o salário e os lucros.E a mercadoria, na verdade, é uma estrutura de valor incorporada na lógica de dois tipos específicos de valor, que Marx vai chamar de valor de uso e valor de troca. A mercadora tem esses dois valores, porém o que predomina na mercadoria é esse valor de troca. O que é o valor de uso? É aquele produto que é feito pensando na lógica do consumo. Então, toda mercadoria tem sua utilidade, não tem? Você não vai comprar nada que não seja útil. Evidentemente, que no mundo atual, nós estamos criando artificialmente, cada vez mais, necessidades que não se justificam, mas que possam se justificar pela própria lógica da nossa sociabilidade. Vamos usar como exemplo os telefones. Você tem um Iphone 4S, só que já chegou o Iphone 5. Para você, por conta de todo um processo de propaganda e sociabilização que se tem, o Iphone 4S daqui a pouco vai se transformar numa máquina obsoleta, não vai mais servir para o que você precisa porque o Iphone 5 já tem um sistema ios7, que foi lançado hoje nos Estados Unidos. Então, tudo isso cria uma necessidade, que um princípio artificial, mas que passa a ser de fato uma necessidade real dentro do contexto de sociabilidade atual. Mas, de toda forma, todo produto que se transforma em mercadoria tem o seu valor de uso, ou seja, ele tem a sua utilidade. Porém ele tem também um outro elemento, um outro tipo de valor que é o valor de troca. Se por um lado ele tem a sua utilidade, por outro ele tem a sua capacidade de ser vendido, de ser comercializado. Marx usa esse termo, mas podemos até substituí-lo, porque na época dele esse era o mais comum, era o mais interessante para pensar as relações de mercantilização da mercadoria(que é a sua capacidade de ser trocada). Hoje, a gente troca por um dinheiro. Mas, enfim, a troca entre dois produtos,no próprio contexto de troca faz com que ele se torne um valor. O Iphone 5 é um produto, é uma mercadoria, mas ele tem um valor, se você for comprá-lo tem que pagar o valor equivalente. Então, a troca é essa, a troca do dinheiro por aquilo que vale aquele produto, ele tem o valor de uso (sua validade), e o valor de troca. O valor de uso fica meio que escondido.Ele desaparece e ao desaparecer, ele acaba até mesmo escondendo a lógica real daquilo, que se apresenta como produto nas prateleiras do supermercado ou da loja em que vende o celular. Nesse aspecto, você tem uma invisibilidade do processo histórico de produção daquele Iphone. Então, você vai comprar um Iphone, só que você comprar ele preocupada em saber como ele foi produzido?Foi produzido na China? Usaram trabalho infantil? Usaram trabalho escravo?... Nós não levamos em consideração isso, porque tudo isso é meio que escondido, invisibilizado. E é isso que Marx vai chamar de fetiche da mercadoria. A mercadoria se apresenta para nós como algo mágico, como se alguém tivesse dado um toque de mágica e o Iphone apareceu. Mas ele foi produzido, pensado, criado. Tem todo um corpo de trabalhadores por trás que pensou no Iphone, que pensou no tênis, naquele produto do 1,99... e um outro grupo de trabalhadores que produziu, na linha de produção. Tudo isso a gente não leva em consideração na hora de comprar, você chega na loja e pergunta “ah, eu quero olhar aquele sapatinho ali da Adidas”,e só quer saber se ele é confortável no seu pé, se vai caber bem, se é do seu número. Você não vai perguntar onde foi produzido,você pode até olhar lá “made in China”, “made in Paraguai”...Você não vai perguntar “mas pera aí, a empresa que fez, que está ligada a Adidas, paga os funcionários hoje em dia? Como é a situação?”(...) Então, tudo isso é o que Marx vai chamar de fetiche da mercadoria. Há um outro aspecto importante, que é a fetichização da mercadoria com relação a nós. Muitas vezes, a gente consume aquilo porque está na moda, o exemplo do Iphone volta nisso. Bem, mas será que o Iphone 4S não resolve as minhas necessidades? Porque eu irei comprar o Iphone 5? Só porque, em geral, os meus amigos já estão com o Iphone 5? Eu tinha um amigo da informática e uma vez ele comprou um pen drive de 64GB, enfim, eu perguntei, “mas Leandro, porque você comprou um pen drive de 64GB? Eu estou com um de 4GB e esse aqui resolve minha vida”, daí ele falou, “só para fazer inveja pros amigos”. Então, tem um pouco essa lógica no nosso consumo, no nosso jeito de vestir, nos produtos que a gente consome, porquê? Porque eles hoje dão até mesmo destaque para a constituição das nossas identidades, passa um pouco por aquilo que a gente consome durante aquilo que a gente usa, veste. Então, por exemplo, você tem a turma dos Apple maníacos, então tem o MacBook, o iMac, o Iphone. Daí, tem até um piadinha para quem tem android,“Você tem um 'aipobre'?”,não é isso? Tudo isso passa por essa lógica da fetichização,ou seja, são elementos que te levam a consumir e a transformar necessidades que seriam artificiais em necessidade de fato reais.
   
             6. Para Marx, o desenvolvimento capitalista se contradiz porque o capital precisa sempre desenvolver a tecnologia e dispensar a força de trabalho,porém a força de trabalho é a fonte criadora de mais-valor. Onde essa contradição se aplica no contexto atual?
     
       Flávio: - Ela não se aplica porque você tem esses dois tipos de mais-valor, de mais-valia. Eu gosto dessa tradução “mais-valor”, facilita para entender, né? O mais-valor era absoluto no início do capitalismo e em alguns países, como a China, ele ainda continua absoluto. Como lá tem muita mão de obra, você tem as empresas repletas de trabalhadores que trabalham 12 a 16 hrs. No Brasil, a gente não vê muito isso,a não ser em confins do país. E daí eu não estou falando só no lado norte ou do miolo do país, que foram, por exemplo, no interior do estado de São Paulo as usinas de cana de açúcar e álcool. Então é no estado mais rico do Brasil que você tem a exploração de mão de obra ,a exaustão. Há gente que morre de exaustão, ou seja, o pessoal produz e trabalha tanto que morre de fadiga. Têm pesquisas que mostram, nos anos 90, o trabalhador cortava oito toneladas de cana por dia, hoje eles cortam em média de doze a quatorze toneladas por dia. Isso é um tipo de exploração de mais-valia absoluta, ou seja, você investe no trabalho humano, explora o máximo de tempo dele. Sim aumentou a produção individual, antes se cortava oito, agora corta doze, mas diminuiu o salário. E daí as usinas, para tentarem enganar um pouco as relações trabalhistas, inventaram a questão da produtividade: você tem um salário mínimo, baixíssimo, de R$ 622,00 e você ganha um adicional de produção. Isso gera uma competitividade entre eles. Percebe que tem elementos, psicológicos aí também no processo? Mas o que predomina, na verdade hoje, no setor mais regularizado da economia brasileira é a mais-valia relativa, ou seja, é o tipo de exploração que envolve mais tecnologia e menos trabalho, mas o trabalho humano ainda permanece como necessário, mesmo que seja numa área, como no caso da Lupo, em que se tem uma sala de informática que controla as máquinas. Aí você tem que ter o controlador, tem que ter o técnico de informática que entende daquilo...Isso exige mais especialização do trabalhador, mais qualificação e é uma coisa que a gente ouve falar o tempo todo na universidade. Por exemplo, vocês terão um diploma de comunicação social com habilitação em jornalismo, então não é um diploma genérico de comunicação social. Aqui, a gente tem habilitação em ciências sociais: políticas públicas, bacharelado e licenciatura...E essa especialização é cada vez mais cobrada pelo mercado.
       

     7. No “Manifesto do Partido Comunista”, Marx e Engels alegam que: “As antigas necessidades, antes satisfeitas por produtos locais, dão lugar a novas necessidades que exigem, para sua satisfação, produtos de países e dos climas mais remotos. A auto-suficiência e o isolamento regional e nacional de outrora deram lugar a um intercâmbio generalizado, a uma interdependência geral entre as nações.” Com a interligação cada vez mais iminente de práticas produtivas entre nações (mais precisamente entre empresas que, juntas, formam grandes corporações), você acredita que a prática essencialmente capitalista de diminuir a vida útil de produtos a fim de que estes sejam substituídos por outros, na busca de alargar o consumismo, pode ser combatida de algum modo?
     
      Flávio: -  Bem, é um pouco do que eu falei já do Iphone, por exemplo. Eu dei esse exemplo porque eu tenho um amigo, que tem um Iphone 3 e não vê a hora de dar um fim nele, porque ele já é obsoleto. Porém, tem um dado importante, o Iphone 3 já não tem mais atualizações. Percebe que a própria empresa estimula esse consumo dos produtos cada vez mais novos? É um pouco dessa lógica, que o Marx já está prevendo lá no Manifesto,na sua obra do século XIX. Por isso eu fico impressionado quando eu estou lendo Marx. Parece que ele falou ontem dessa necessidade, cada vez mais amplificada do consumo. É de fato um mecanismo do capital. O capital precisa se reproduzir o tempo todo e para se reproduzir precisa produzir mercadorias e ,para produzir, mercadorias precisa vender e para vender, nós precisamos consumir. Não dá mais para ter a geladeira que dura duas, três décadas, entende? Nossos avós tinham isso(você vai lá na casa da avó e tem uma geladeira azul, redondona e você abre e ela funciona normalmente). Hoje não. Hoje, a geladeira e o fogão, você troca conforme os estilos. Eles podem até servir, mas não são tão bons quanto eram os antigos. E eles saem de moda! Então é natural hoje você ouvir as pessoas falando que precisam mudar a sala, porque o padrão hoje é outro, então isso acaba gerando necessidades de consumo. O que fazer para combater isso? Eu, a princípio, olhando Marx e outros autores, vejo que não tem outra saída a não ser repensar os valores. Hoje nossos valores estão muito focados mais na moral e menos na ética. Claro que os dois são importantes, mas a ênfase na moral sem a ética faz com que a sociedade seja muito moralista em detrimento de um compromisso mais coletivo, que passa pela lógica da ética. Hoje nós somos muito individualistas e muito consumistas, somos muito competitivos... E é importante que se resgate a lógica da solidariedade, em detrimento da competição; a lógica da coletividade, em detrimento do individualismo e a lógica do consumo útil em detrimento do consumo artificial. Se você é mais solidário e é mais coletivista, você vai ter mais atenção com relação ao que vai consumir, inclusive levando em consideração a sua relação com o meio ambiente. Hoje se tem até uma consciência planetária aumentando com relação a isso, tem até movimentos que falam que, se você quer comprar um celular novo, doe o seu antigo, porque ele vai servir para alguém. Então, eu acho que é importante recuperar essa lógica, que é só a partir disso que você consegue repensar um pouco essa realidade atual, que nos está levando para um contexto meio que apocalíptico. As matas estão acabando, o petróleo está acabando, enfim, as matérias primas são finitas e daí a gente ta falando que não tem petróleo, mas tem álcool. Ter o álcool significa plantar mais cana de açúcar e ter menos espaço para arroz, feijão, mandioca, batata, que a gente come. Enfim, os grandes agricultores, o agronegócio não está voltado para a alimentação, está voltado para a produção de cana de açúcar, pra álcool, soja para ser industrializada e outras coisas mais. Não é para o consumo direto e esse é um problema. A gente está pagando cada vez mais caro no feijão, no arroz, na batata, porque tem cada vez menos produtores. Enfim, é um pouco isso. 
    
        Francisco: - Eu queria pensar isso nos mesmos termos que Marx se coloca, quer dizer, em vez de descer das ideias para a realidade, partir da realidade para as ideias. E aí eu diria para você, seria muito difícil. Pensando do ponto de vista das ideias, há movimentos sociais lutando por isso. E porque isso não é eficaz? A relevância disso é pequena, diante desse processo geral, internacional, etc. teríamos que trabalhar aí com a questão do esgotamento das fontes de matéria prima, mas isso também significa o quê? Já se consegue sair dessas limitações das fontes de matérias primas porque se criam outras, mas acho que não faria mal a gente pensar que os recursos vão se esgotar, mesmo que seja lá na pontinha tem sempre uma fonte natural, e pode se pensar em cima do esgotamento dos recursos do planeta, fora disso, eu acho que esses movimentos são bem vindos, de luta, para que não entre de vez e de forma absoluta nessa obsolescência programada dos objetos, dos bens que atende as necessidades, acho politicamente interessante, mas, quero pensar- e lá na base? Na base, eu acho que teríamos que pensar numa hipótese dessa natureza, no esgotamento total dos recursos.
                                          
                                        

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