domingo, 31 de maio de 2009

CONTRACULTURA: O que é, Como se faz

Por: Andressa Mayara, Kamylla Katy, Laura de Paula, Mariza Fernandes, Serena Veloso e Vanessa Brandão.

CONVITE A UMA VIAGEM HISTÓRICA

A contracultura foi um grande movimento que floresceu na década de 1960. Marcou o mundo, introduziu-se na história e influenciou gerações. Não foi mero capricho de uma juventude rebelde. Foi mais que isso. Ela nasceu do desejo de mudar o mundo. A diferença é que esses jovens partiram para a ação. E lutaram de forma pacífica por seus objetivos. Não conseguiram modificar a realidade. Porém, transformaram mentalidades...

É sem dúvida, um movimento sociológico. Sociológico, porque trata de sociedade. Porque é um movimento revolucionário. Porque envolve valores e ideais. Porque é realizado por indivíduos sociais. Porque é um fenômeno social, uma revolução social.

Procuramos não somente definir o que é contracultura. Embarcamos nos movimentos que a compuseram. Convidamos você, caro internauta, a navegar conosco nestas páginas. Avisamos de antemão, que a paciência é bem-vinda nesta viagem. Afinal, as particularidades merecem destaque, por isso a extensão do trabalho.

Vale a pena uma leitura atenta. Rock, hippies, tropicalismo, o “ano que nunca acabou”, os beatniks, punks, cultura underground, Woodstock e Altamont são atrativos desta turnê pela história.

Para embarcar, deixe valores próprios e sua concepção de mundo. Liberte-se de preconceitos e não seja etnocêntrico. Vá de mente aberta e não leve bagagem. Estamos à sua espera. Podemos começar?
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“Num mundo mecânico e despersonalizado, o homem tem uma sensação indefinível de perda; uma sensação de que a vida se tornou empobrecida, de que os homens estão de certa forma ‘desenraizados e deserdados’, de que a sociedade e a natureza humana foram igualmente atomizadas, e assim mutiladas, e, sobretudo de que os homens foram separados do que quer que possa dar sentido a seus trabalhos e suas vidas.”

(TAYLOR, Charles; JOSEPHSON, Eric; JOSEPHSON, Mary. Man Alone. Dell Publishing, 1962. p. 11.)

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INAUGURA-SE UMA NOVA VISÃO DE MUNDO

A forma diferente de manifestar e a temática nada comum – paz e amor, em vez de luta contra a fome e a miséria – davam à contracultura um ar de alienação. Não se restringia ao local; o movimento tinha proporções continentais, dizia respeito a toda uma aldeia global. O que se contestava eram os tabus morais e culturais, os costumes e padrões vigentes, enfim, as instituições sociais. Propunha-se novas maneiras de pensar, sentir e agir, criava-se outro universo com regras e valores próprios.

Uma característica notável é que este movimento não se baseia na luta de classes. A contracultura encontra no jovem o seu intérprete e o seu motivo mais forte. Foram grupos de jovens brancos das camadas médias urbanas que iniciaram os protestos. Justamente eles, que tinham acesso aos privilégios da cultura dominante. Nesta luta, o jovem negro tornou-se importante aliado, porque historicamente, já era símbolo de rebeldia contra o sistema americano. O conflito de gerações foi intenso e começava na família, bem como era marcante a consciência etária (oposição jovens/ não-jovens). Mesmo assim, alguns teóricos e gurus possuíam idade avançada. Herbert Marcuse e Norman Brown confrontavam suas obras com Marx e Freud ao analisar as sociedades industriais e as possibilidades de transformação revolucionária.

Tudo começou na década de 1960. Os EUA vivenciava um período de pós-guerra, com a corrida armamentista e o acirramento das lutas raciais. As transformações socioeconômicas advindas com a criação do Estado do Bem Estar Social provocaram mudanças nos hábitos e comportamentos juvenis. Eles tiveram que se adaptar radicalmente à tecnocracia (sociedade gerenciada por especialistas técnicos e modelos científicos), que resultava numa realidade mecânica e desprovida de qualquer impulso criativo. Diante deste contexto, os jovens procuraram “cair fora” (drop-out) e criar sua própria cultura.

Além da ampliação dos cursos superiores que favoreceu a concentração de estudantes em espaços de discussão, as manifestações contraculturais descobriram na mídia uma potente arma para propagar os seus ideais. Os meios de comunicação em plena expansão aproximavam os jovens e universalizavam os novos valores. Aliás, foi a imprensa norte-americana quem deu nome ao movimento que nascia nos EUA, florescia na Europa e chegava, com menor intensidade, na América Latina.

Por ser uma resposta à cultura massificante do Ocidente, era de se esperar que a contracultura tivesse características bastante incomuns para a época. Com caráter fortemente libertário e questionador, repreendia as políticas de esquerda tradicional e discordava dos princípios capitalistas e sua economia de mercado, daí o anticonsumismo. Os meios de comunicação em massa, especialmente a televisão, foram amplamente criticados: um ponto contraditório, se considerada a relevância destes meios enquanto difusores do movimento. Além disto, qualquer tipo de violência ou conflito era repudiado, por isso, a busca pela paz. Plantou-se uma nova concepção de família, casamento e relação sexual, a qual admitia liberdade nestes relacionamentos. Pregava-se a vida comunitária e a valorização da natureza, sendo o vegetarianismo, opção à alimentação natural. A religiosidade ocidental foi posta em xeque com a aproximação das práticas religiosas orientais, principalmente o budismo. Colocou-se em voga o respeito às minorias raciais e culturais. Para completar, a experiência frequente com drogas psicodélicas.

Não era difícil identificar a “tribo”. Os “rebeldes sem causa” ou a “juventude transviada” apresentava sinais evidentes: cabelos compridos, roupas coloridas, misticismo, rock, viagens de mochila, drogas, orientalismo. A aparência, o modo como se vestiam ou não (eram adeptos da nudez) e o penteado caracterizavam o novo “personagem”.

Como não encontraram respostas na luta política, canalizaram o protesto para outras áreas. Buscaram nas artes o espaço que desejavam e foram bem-sucedidos nisto. Os primeiros passos da contracultura surgiram com a Geração Beat: poesia anti-intelectualista com tradição boêmia. Mas foi a música, a via de maior alcance. Folk, blue e rock’n-roll expressavam, através de suas letras, a rebeldia e o descontentamento. A tentativa de ingresso na política se deu com a criação do Youth International Party (Partido Internacional da Juventude). Já o Maio de 68 representou o ápice dos movimentos estudantis. Também são desta época os grandes concertos musicais de Woodstock e Altamont. No Brasil, a Tropicália de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa é um bom exemplo.

Alguns dizem que a contracultura assumiu duas vertentes. Uma delas é a atitude hippie, onde o confronto é o distanciamento da sociedade comum. Na outra, assume-se um caráter militante, clandestino e até terrorista, é o estereótipo do guerrilheiro.

Em síntese, a contracultura é uma anticultura. Surgiu como antídoto para a cultura tradicional. Para alguns, a afirmação e a sobrevivência de uma significava a negação e a morte da outra. Pensamento radical, pois não há contracultura sem uma cultura a ser contestada. O movimento pregava menos discurso formal e mais prática informal. Queria provar que, mesmo as lutas ideológicas e pacíficas podem obter sucesso.

Em meados dos anos 70, a contracultura começou a perder seu vigor. De fato, o desejo revolucionário foi mais marcante do que o acontecimento revolucionário em si. Na realidade, a mobilização contestou mais do que venceu, imaginou mais do que transformou, expressou mais do que organizou. As mudanças que se queria não ocorreram. Mesmo assim, suas heranças são perceptíveis. A luta pela igualdade de direitos para as minorias (mulheres, homossexuais, etc), as passeatas contra as guerras e em favor do meio ambiente, assim como movimentos anti-racistas e pela legalização das drogas são resultado destas mobilizações.

Parece inseparável da contracultura o clichê “sexo, drogas e rock’n-roll”. Falar deste assunto sem vinculá-lo às palavras de ordem: “Paz e Amor”, “É Proibido Proibir”, “Aqui e Agora”, “Gozem sem Entraves”, “Paradise Now” é impossível. É necessário abandonar valores próprios para entender aqueles “cabeludos”, “psicodélicos”, “motoqueiros”, “andarilhos”, “malucos”. Porque como cantou Caetano Veloso em sua música Vaca Profana (nome bem sugestivo, não?), de perto, ninguém é normal.
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CONTRACULTURA REGADA A DOSES DE POESIA

Definir a palavra beat é uma tarefa complicada, considerando a grande quantidade de acepções atribuídas a ela. Talvez, seja este um dos motivos que dificultam a formulação de uma significação concreta para o movimento, cujas origens remontam à década de 1950. Mas, tendo em vista as características da Geração Beat, o sentido mais adequado remete à ideia de batida e pancada.

Para aqueles que pertenciam a classes menos favorecidas ou moravam nas ruas, o beat era aquele cara que já estava exausto e vencido, devido às suas condições de vida. Além de ser excluído pela sociedade – que no momento se preocupava mais com o novo aparelho eletrodoméstico que entraria no mercado do que com as consequências da II Guerra Mundial ou da Guerra Fria – não tinha dinheiro para comer, beber e sequer para comprar qualquer alucinógeno que levasse ao seu nirvana idealizado.

Para Jean-Paul Sartre, esta seria a “Geração Perdida”, que buscava demonstrar todo o descaso, desilusão e desprezo que tinha por aquela sociedade mesquinha e consumista. Os beats mais famosos definiam o movimento de maneiras diversas. Jack Kerouac usava vários significados para, assim, manter um aspecto indefinível. Allen Ginsberg – autor do poema Howl, a representação literária mais importante daquela geração – se esforçava para aliar o beat à literatura, mostrando toda a sua insatisfação através dela. Já a escritora Hettie Cohen Jones dizia que uma Geração não pode ser assim chamada, caso os integrantes caibam em sua sala de estar.
Críticas à parte, o certo é que existiram dois grupos beat: o primeiro surgiu na década de 1940, em Nova York e, o segundo nasceu em São Francisco, na década de 1950. Em ambos os grupos, a arte foi usada – sendo que no segundo, além da literatura também abusaram da pintura e da escrita, transcendendo-se o ambiente urbano, chegando-se ao campo e até mesmo ao meio espiritual – de forma distinta como megafone para alertar sobre todo o industrialismo, consumismo e o crescimento da indústria de massa que tanto massacrava o expressar do homem.

Foi em 7 de outubro de 1955 que a Poesia Beat deu seu primeiro grito, quando um grupo de poetas anônimos fez um recital gratuito numa galeria velha de um bairro negro em São Francisco... E não houve lugar melhor. Kerouac, que estava ali como espectador, arrecadou dinheiro, comprou vinho barato e junto com a plateia, formada por negros e latinos, ouviu poemas que falavam de uma sociedade que a maioria dos presentes ali conhecia muito bem. Tudo isso fluiu de uma forma pura, ao som do bom jazz, sem a engenhosa máquina promocional corrompendo pensamentos. Nesta data, o poema Howl for Carl Solomon, símbolo do movimento, foi recitado pela primeira vez:

"Eu vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura,
esfomeados nus e histéricos,
arrastando-se pelas ruas negras no poente
à procura de um rancor injetável".

Aquela data marcou o nascimento de uma nova poesia norte-americana. Para Gary Snyder, "aquele momento representou uma sensação de liberdade expressiva, uma libertação do ambiente universitário que sufocava os poetas e esvaziava a imaginação, por tratar de discussões tediosas como o capitalismo".

A popularização do beat ocorreu por meio da imprensa, que fez questão de divulgar todos os julgamentos sobre as várias publicações literárias da Beat Generation. De certa forma, foi um modo de ascensão meio incomum para um movimento de contracultura, porque ocorreu em plena década de 1950, onde a Guerra Fria, a luta contra o socialismo e o governo de Joseph McCarthy estabelecia cruzadas constantes entre si. Ainda assim, o livro Howl and Other Poems, de Alen Ginsberg, saiu do julgamento reconhecido como “de valioso conteúdo social”, tendo-se uma das primeiras vitórias da arte sobre a censura norte-americana.

O movimento literário Beat abordava assuntos como homossexualismo, sexo dentro e fora do casamento com múltiplos parceiros, uso de entorpecentes e outros temas polêmicos para a época. Com a disseminação do movimento, surgiu o termo beatniks, cujo sufixo nik deriva do satélite russo Sputnik, evidenciando seu caráter subversivo baseado na oposição entre capitalismo e socialismo.

A indústria de massa apoderou-se da popularidade da Geração Beat e começou a vender discos de Jazz que carregavam o emblema dos beats. Os locais frequentados pelos primeiros beatniks se transformaram em ponto turístico, onde jovens com costeletas largas, boinas, óculos escuros e barbichas se reuniam para ouvir jazz, porém mal sabiam o que o movimento realmente queria.
Segundo Ginsberg, a Generation Beat desejava uma percepção abrangente da realidade, fugindo da visão convencional de uma América rica e próspera. Era receptiva a novas visões de mundo, fossem estas provenientes da arte ou da espiritualidade e não das drogas ou vandalismo.

Em suma, há quem diga que o beat era um tipo boêmio que se expressava através de sua literatura singular – sem regras gramaticais, ortográficas ou algo parecido –, ou um anarquista romântico que, além de escrever, enchia a cara com álcool e entorpecentes e saia dirigindo pela Rota 666 sem destino, ou ainda, há quem o considere um grupo que ignorava o intelectualismo e se deixava levar por sua ludicidade, desprezando a necessidade de trabalhar, enriquecer e morrer, imposta pelo capitalismo. Entre tantas adjetivações e tentativas de definição, algo é certo: a Beat Generation foi a geração responsável por dar o pontapé inicial naquilo que explodiria, literalmente, nos anos de 1960: o power flower, que, com seu rock e vontade de mudança, protagonizaria diversos movimentos importantes mundo afora.
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O RITMO DA CONTRACULTURA

Diferente do que muitos pensam o Rock não é apenas um estilo musical, mas um importante movimento social que teve seu início na década de 1950, nos Estados Unidos. Essa agitação predominantemente jovem obteve grande impacto na sociedade da época e se manifestou especialmente na música, no estilo das roupas, cinema e comportamento. O fato social de protesto e indignação trouxe muitas mudanças principalmente na mentalidade da juventude.

O contexto de nascimento do Rock foi o pós-segunda guerra mundial nos EUA, tempos de extremo consumismo da sociedade, uma vez que, grande parte das invenções para uso militar se tornaram produtos para o consumo da população. Também foi o período da Guerra Fria, que “dividia” os jovens em: socialistas, anarquistas, capitalistas e os que não eram nada. Neste cenário, começaram a surgir filmes baseados na sociedade alienada, que mostravam motoqueiros invadindo cidades e rapazes delinquentes homicidas, evidenciando em forma de violência, a indignação da juventude marginalizada para com o sistema. Até que em 1955, o filme de maior sucesso dentro desse “gênero”, Sementes da Violência surgiu com a música tema de Bill Haley, Rock Around The Clock: o primeiro sucesso do movimento que, tornou-se o hino dos jovens, “um lugar onde se apoiavam”.

No ano seguinte, surge o famoso rei do Rock: Elvis Presley. Um símbolo sexual que cantava com um negro teve o poder de transformar o Rock de modismo em revolução, mesmo que ainda não fosse nada engajado. Com voz rouca e um jeito inigualável de dançar, o cantor atingiu vendas extraordinárias durante toda a sua carreira, permitindo-o manter o título de rei mesmo depois de sua morte, em 16 de agosto de 1977.

Em 1962 são apresentados ao mundo os Beatles e sua grande composição: Love Me Do. Com a imagem de bons rapazes e a música dançante, o êxito dos garotos de Liverpool aumentava a cada ano, tornando-os a banda mais conhecida durante os anos 60 – mais conhecidos do que Jesus Cristo, como disse um dos integrantes da banda –, algo que ajudou a difundir o Rock como fenômeno mundial.

As canções de rock’n-roll representavam a realidade da época: ruas cheias de carros, pessoas se amando, se odiando, sapatos pisando no asfalto, hotéis, lanchonetes, bombas de gasolina. As letras tratavam de problemas cotidianos dos jovens, desde as complexas relações humanas até o prazer de ouvir rock’n-roll bem alto dirigindo um carrão. Inicialmente, esse estilo tinha como temas principais: convites à dança e ao amor, descrição de carros e garotas, histórias de colégio e dramas da adolescência.

Mais tarde, no princípio dos anos 1960, apareceram artistas como Bob Dylan que revolucionaram o cenário do Rock, trazendo músicas engajadas para um público menos alienado – tal revolução musical, juntamente aos movimentos pacifistas e manifestações contra a Guerra do Vietnã, deu à década de 60 o apelido de “Anos Rebeldes”. Canções como Masters of War eram denúncias ao militarismo e à corrida nuclear que assombrava todos. Dessa forma, os grupos de Rock passaram a buscar novas dimensões expressivas que continuam até os tempos atuais, quando, infelizmente ele não está tão popular quanto nos velhos tempos.

Em 1969, o Festival Woodstock torna-se o símbolo desse período. Sob o lema “paz e amor”, meio milhão de jovens compareceram ao concerto que contou com a presença de Jimi Hendrix e Janis Joplin. Trinta e dois dos mais conhecidos músicos da época apresentaram-se durante aquele fim de semana chuvoso. Apesar das tentativas posteriores de emular o festival, Woodstock provou ser único e lendário, reconhecido como um dos maiores momentos na história da música.
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A FILOSOFIA DO PAZ E AMOR

Na década de 1960, os Estados Unidos começava a vivenciar um momento de transformações advindas de novas mentalidades. Crescia a descrença no modelo econômico e político, questionavam-se os benefícios da sociedade industrial. Uma parcela da população recusava-se a pagar impostos por discordar do destino dado ao dinheiro, jovens resistiam à prestação do serviço militar. Justamente neste contexto de insatisfação, surgiu – especificamente na Califórnia – o movimento hippie, que materializava as características da contracultura.

Os hippies formavam um mundo à parte, colorido ao gosto deles. Diferenciavam-se dos outros pela aparência: cabelos agressivamente compridos e roupas exóticas. Seus protestos eram pacíficos, as manifestações tinham slogans alegres e possuíam o hábito nada comum de distribuir flores durantes as passeatas. A conduta hippie se fundamentava numa filosofia de “Paz e Amor”.
Adeptos de um modo de vida comunitário queriam viver perto da natureza e procuravam organizar comunidades agrícolas baseadas no trabalho manual. Respeitavam as questões ambientais, a emancipação sexual e a prática do nudismo. Simpatizavam com religiões orientais como o budismo e o hinduísmo. Opunham-se à Guerra do Vietnã, ao nacionalismo, ao patriarcalismo, ao militarismo, ao poder governamental, ao capitalismo, às corporações industriais, à massificação, ao autoritarismo e aos valores que, segundo sua concepção, eram ilegítimos.

O misticismo, o psicodelismo e as drogas justificavam a oposição ao racionalismo. Tinham três eixos de movimentação: da cidade para o campo, da família para a vida em comunidade e do racionalismo cientificista para os mistérios e as descobertas das coisas místicas.

Em seu auge, bairros e avenidas tornaram-se centros de hippismo. Haight-Ashbury (em São Francisco), Sunset Boulervad (em Los Angeles), Old Town (em Chicago) ou East Village (em Nova York), além de Londres e Amsterdã e outras cidades marcadas pelo exotismo como Katmandu, Marrakesh e Cuzco são bons exemplos.

O ano de 1967 foi marcante. Em São Francisco, palavras de ordem como “os hippies morreram! Viva os homens livres!” acompanharam a cremação de um caixão, representando o enterro simbólico do movimento hippie. Também ocorreu nesta época a fundação do YIP (Partido Internacional da Juventude). Surgia assim, a figura do yippie – o hippie politizado – convergindo os projetos de revolução cultural e política.

Em 1970, parte das características hippies havia sido incorporada na cultura principal. Entretanto, a grande imprensa perdera o interesse pelo movimento, ainda que alguns tivessem intíma ligação com a mídia. Além disso, como evitassem a publicidade, chegou-se a cogitar o fim da era hippie.

No Brasil, a introdução do hippismo, bem como a contracultura num todo, coincidiu com o período ditatorial, travado por fortes rivalidades políticas e ideológicas. O governo tentou impedir a liberação dos costumes através da censura e da repressão.

De fato, a cultura (ou contracultura) hippie perdeu muitos de seus adeptos e valores originais. O movimento minguou à medida que, os ideais libertários foram transformados em mercadoria pela indústria cultural. Mesmo assim, ainda existem grupos que seguem os preceitos do hippismo. Geralmente, eles estão espalhados em praias e comunidades alternativas, a exemplo das cidades brasileiras de São Tomé das Letras em Minas Gerais, Trancoso na Bahia e Pirenópolis em Goiás. Às vezes, estes reminiscentes se encontram para celebrar a vida e o amor em festivais e reuniões da “família arco-íris”. Para dimensionar a força e a importância do rock no cenário hippie, o cantor Raul Seixas e a banda Os Mutantes são citáveis.

Em Goiânia, a Feira Hippie nasceu no ápice do movimento, com o propósito de expor as peças artesanais produzidas pelos hippies. Porém, ela se tornou um ambiente meramente comercial e, hoje, de hippie, só mesmo o nome da feira.

Apesar da desintegração dos hippies enquanto organização embasada na luta contra o sistema, é considerável o legado deixado por eles. Os protestos ambientais, a liberação dos costumes, o nudismo, o vegetarianismo, o estilo despojado, entre outros, sempre remetem ao hippismo. Aliás, o que todos procuram senão Paz e Amor?
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O ANO QUE NUNCA ACABOU

O ano de 1968 foi de revoltas no mundo todo. Os jovens inspirados pela contracultura e por ideais de liberdade e igualdade foram às ruas mostrando toda a sua força. Vários acontecimentos marcaram aquele ano que se tornou determinante na história.

A guerra do Vietnã mostrou, no começo de 1968, a queda do poderio bélico dos Estados Unidos. Além disso, causou grande agitação e protesto da comunidade negra norte-americana o assassinato do pastor Martin Luther King, que defendia a igualdade racial e os direitos cívicos dos negros.

Contudo o Maio de 68 foi o movimento contracultural de maior repercussão daquele ano. Buscando o fim de uma sociedade francesa fechada e conservadora, governada pelo general Charles De Gaulle, o movimento estudantil entrou em confronto com a polícia. Essa ação culminou numa greve geral de estudantes e trabalhadores, unindo franceses de todas as idades, sexos e ideais. Tal mobilização alcançou vários países europeus, que se embeberam da igualdade social e sexual, dos direitos das minorias e da democracia.

Na Nigéria, a Guerra de Biafra desencadeou um movimento humanitário internacional para acabar com a fome na região. Inspirada pelo Maio de 68, a Primavera de Praga foi outro destaque. Na defesa de um socialismo preocupado com os cidadãos e no intuito de promover uma abertura da Tchecolosváquia, integrantes do Partido Comunista Tcheco propagaram a ideia do "socialismo com face humana". O movimento foi arrasado pela invasão soviética à Praga e, isso impediu a realização da reforma proposta pelos comunistas.

No México, o massacre de cerca de 200 estudantes pelas forças de ordem causou grande comoção. No Brasil, o “ano que nunca acabou” caracterizou-se por fortes protestos, especialmente após a morte do estudante Édison Luís de Lima Souto durante a invasão do restaurante Calabouço. As manifestações estudantis e sindicalistas continuaram até a implantação do AI 5, que censurava a música, o teatro e o cinema que abordavam política e valores imorais.
O ano de 1968 efervesceu a ideologia do movimento contracultural, comstituindo o período de maior luta social de toda história, daí sua relevância.

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WOODSTOCK E ALTAMONT: ENTRE O CÉU E O INFERNO


Há 40 anos o mundo via tomar corpo, voz e expressão, o espírito independente de uma geração de jovens descontentes com os padrões sociais que guiavam suas vidas. John Roberts, Joel Rosenman, Artie Kornfeld e Michael Lang não imaginavam as proporções que aquele evento, inicialmente preparado para 50.000 pessoas, alcançaria em todo o mundo. A Feira de Arte e Música de Woodstock foi, sem dúvida, a maior manifestação que a contracultura realizou ao longo dos tempos.

Enquanto quase 500.000 pessoas se reuniam em uma fazenda no Condado de Sullivan, mais precisamente na cidade de Bethel, o mundo vivenciava os horrores da Guerra do Vietnã e a chegada de Neil Armstrong à Lua, tudo isso sobre o tabuleiro da Guerra Fria. Todos esses fatos, somados ao espírito produzido pelos acontecimentos de maio de 1968 na França, inspiraram nas pessoas, sobretudo nos jovens, um acalorado sentimento anti-guerra.

Apesar dos fatores políticos terem grande importância no desenrolar dos acontecimentos que culminaram no Woodstock, a maior contestação daqueles garotos e garotas eram as regras sociais que trilhavam o “processo civilizatório” no qual eles viviam. A repressão que a sociedade exercia (e ainda exerce) em relação ao que lhe parece estranho ou foge aos padrões ditos normais, foi muito bem representada por esse festival. Lá as pessoas eram livres para cultuar o amor da forma que quisessem, usar as drogas que quisessem, enfim, agir como quisessem. Estas atitudes podem ser consideradas por muitos como libertinas e sem valor social. Porém o que aqueles jovens queriam provar era justamente que podiam fazer de seus corpos o que bem entendessem, exatamente pelo fato de serem seus. Logo as regras sociais não teriam mais voz ativa em suas vidas, porque tinham o livre arbítrio para tomar as decisões que lhes pareciam mais certas. Mesmo que estas decisões não pudessem ser aceitas pela grande maioria, como não o foram.

O festival Woodstock teve início no dia 15 de agosto de 1969, numa sexta-feira às 17h07min. A quantidade exorbitante de pessoas que compareceram ao evento surpreendeu a todos. Inicialmente os jovens idealizadores do projeto tiveram grandes problemas para encontrar um lugar que pudesse sediar a festa. As comunidades locais entendiam que os shows atrairiam baderneiros e que as pequenas cidades não tinham estrutura para abrigar tantas pessoas (mesmo a previsão de 50.000 chocava, porque ninguém havia presenciado um concerto tão grande). Após algumas tentativas e várias renúncias conseguiram uma fazenda próxima à Nova Iorque.

O primeiro dia foi marcado por uma forte chuva, que atrapalhou bastante os shows e castigou o público com suas barracas. Somado a isso, houve um engarrafamento de proporções jamais vistas nos Estados Unidos, que impedia o público e as bandas de chegarem ao local. Devido à falta de bilheteria, todas as pessoas que deixaram para comprar o ingresso na hora, entraram gratuitamente. Isso levou a organização do festival a derrubar a cerca da fazenda. Os outros dias seguiram acompanhados de chuva, falta de comida e muito rock’n-rool.

Infelizmente o Woodstock também foi marcado por algumas tragédias. Raymond Mizark, de apenas 17 anos, adormecia sob um saco de dormir próximo a uma pilha de lixo que era arada por um trator. O trator passou em cima do garoto. Outros dois rapazes morreram em decorrência de uma overdose. Segundo um relatório do Departamento de Saúde do Estado, lançado em outubro de 1969 foram registrados 5.162 casos médicos, 797 casos de abuso de drogas e 8 abortos. Nenhuma criança nasceu dentro da fazenda, embora 3 bebês tenham vindo ao mundo em um hospital improvisado, montado há apenas alguns quilômetros do local.

Apesar das condições de calamidade pública em que ocorreu o festival, ele conseguiu alcançar seu objetivo, que era chocar a sociedade com um movimento pacífico, mais na linha da desobediência civil. As roupas, os cabelos e a nudez comunicaram tanto quanto as músicas que continuam tocando em nossos ouvidos, imortalizadas nas vozes de Janis Joplin, Jimi Hendrix e The Jefferson Airplane, entre tantos outros participantes do Woodstock. De certa forma a magia desses três dias de liberação continua viva entre nós e é reforçada pelos inúmeros festivais contemporâneos em sua homenagem.

Porém, Woodstock logo seria esquecido devido ao episódio sangrento de Altamont. No final de 1969, os Rollings Stones resolveram promover um concerto gratuito aos seus fãs californianos para comemorar uma turnê bem-sucedida. Contrataram grupos famosos como Santana, Gratteful Dead e Jefferson Airplane e deram um caminhão de cerveja à gangue de motociclistas Hell’s Angels, como pagamento pela segurança do evento.

Superando as expectativas, cerca de 300 mil pessoas compareceram, causando congestionamento nas vias de acesso. O “inferno” em que Altamont se transformou foi reforçado pelo exagerado consumo de ácido, maconha, bebidas alcoólicas e bolinhas de anfetamina. No festival, presenciou-se muita violência, brigas e discussões. Saldo: quatro mortes. Duas pessoas morreram atropeladas, uma morreu afogada e um negro foi esfaqueado por um dos Angels quando apontou uma arma na direção do palco.

Altamont foi a antítese de Woodstock. O primeiro foi marcado pelo fim da Era Aquarius e por sentimentos de frustração, perplexidade e fracasso. Já o segundo foi, nas palavras de Abbie Hoffman, a “primeira tentativa de aterrissar um homem na terra”. Respectivamente, resultaram nos filmes Gimme Shelter e Woodstock, tamanha a repercussão. Na memória das pessoas, Woodstock foi o bem e Altamont é o mal. Enquanto um foi a síntese do ideário propagado, o outro caracterizou a contra-utopia dentro da própria contracultura. Woodstock foi o sonho colorido, Altamont representou as nuvens negras do movimento. Desta forma, marcaram a história e, é assim que são lembrados: companheiros inseparáveis.
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TROPICALISMO: CONTRACULTURA À MODA BRASILEIRA
O universo musical brasileiro mal saiu dos embalos da Bossa Nova e lá veio a Tropicália (ou Tropicalismo), um movimento cultural contestador e vanguardista que surgiu na década de 60 para revolucionar nossa música e cultura.

Apesar de naquela época o país estar mergulhado em plena ditadura militar, a geração dos Centros Populares de Cultura, da Arena e dos movimentos estudantis continuava a pleno vapor, exercendo de uma energia criativa que parecia inesgotável.

Foi neste ambiente que nasceu a Tropicália. Liderado pelos músicos Caetano Veloso e Gilberto Gil, o Tropicalismo usa as ideias do Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade para aproveitar elementos estrangeiros que entram no país e, por meio de sua fusão com a cultura brasileira, criar um novo produto artístico. A relação do Tropicalismo com a Contracultura está nos valores utilizados pelos integrantes do movimento, que eram diferentes dos aceitos pela cultura dominante, com referências consideradas cafonas, ultrapassadas e subdesenvolvidas. Os tropicalistas pretendiam subverter as convenções, transgredir as regras vigentes, tanto nos aspectos sócio-políticos, quanto nas dimensões da cultura e do comportamento.

O manifesto do movimento foi o disco Tropicália ou Panis et circencis (1968), uma mistura do refinamento da Bossa Nova com influências dos Beatles. As guitarras elétricas, inseridas no cenário musical brasileiro pelos tropicalistas, causaram polêmica em uma classe média universitária nacionalista, contrária às influências estrangeiras nas artes.

O Tropicalismo também se manifestou em outras áreas, como na escultura Tropicália (1965), do artista plástico Hélio Oiticica, e na encenação da peça O Rei da Vela (1967), do diretor José Celso Martinez Corrêa (1937).

A irreverência tropicalista revolucionou o comportamento e os critérios de gosto vigentes, tanto em relação à cultura quanto à moral e à conduta, ao corpo, ao sexo e ao vestuário. A contracultura hippie foi assimilada, com a adoção da moda dos cabelos longos encaracolados e das roupas escandalosamente coloridas.

O movimento durou pouco mais de um ano e acabou reprimido pelo Governo Militar após a decretação do Ato Institucional n° 5 (AI-5), em dezembro de 1968, quando ocorreu a prisão de Gil e Caetano. A cultura do país, porém, já estava marcada para sempre.
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A CONTRACULTURA AINDA EXISTE?

O movimento contracultural nascido na década de 1960 perdeu adeptos e se desintegrou com o passar dos anos. Hoje, restam manifestações isoladas que pouco lembram a contracultura original.

Os jovens contemporâneos não possuem o engajamento político e ideológico daqueles de outrora. Dizem que a juventude de agora é alienada e busca freneticamente o inusitado. Parece que desejam aparecer de alguma forma, encarnam os “desencanados”, integram suas tribos, se destacam pela autenticidade.

A constante da nova contracultura parece ser a desestruturação do que existe. Um exemplo é o rock, símbolo da rebeldia nos anos 60, que se tornou um mosaico de tendências. Os líderes desta geração da contracultura não são aprovados pela mídia. Os festivais atuais como o Lollapalooza são mais liberais com relação ao sexo e às etnias.

Hoje, a contracultura não tem um objetivo comum a ser atingido. Talvez seja esta a causa de o movimento estar configurado dessa forma. E assim continuará, até que nasça uma geração de inconformados o bastante para tentar mudar o mundo.
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UM BASTA AO CONFORMISMO

A subcultura do rock’n-roll tem sido instável e complicada de se definir. Parece idealístico e improvável que o rock – que começou vários anos antes de Elvis Presley e continua existindo em vários formatos até hoje – tenha tido um objetivo maior do que o de entreter.

Jovens rebeldes foram atraídos por esses tipos variados ao longo de quatro décadas, mas como um todo, o rock tem sido apenas outra parte da indústria do entretenimento em constante crescimento. O rock’n-roll antigo falava vagamente das barreiras raciais e desigualdades dos anos 50, mas foi só no final dos anos 60 que a política, de uma forma distinta, foi enfocada por ele. Foi nessa época que o rock mostrou seu poder e a subcultura se tornou uma contracultura.

Uma exceção à política e às ações previsíveis do rock é o chamado movimento punk. A data e o local de seu nascimento são discutíveis. A cena de Nova York do final dos anos 60 e início dos anos 70 ou os punks ingleses de 1975/1976 podem receber as honras. Contudo, nenhum deles merece uma longa investigação, pois a política específica e a formação genuína do movimento só se deram no final dos anos 70.

O objetivo dos primeiros punks era expressar sua fúria de uma maneira áspera e original. A coisa mais odiada no mundo era alguém que fosse um conformista assumido. Muitas bandas punks montaram suas plataformas ou mensagens baseadas no não-conformismo. O conformismo é rejeitado em todas as frentes possíveis a fim de perseguir a verdade ou, às vezes, apenas para chocar as pessoas.

Os jovens são conhecidos por atravessarem uma fase de rebeldia que se manifesta contra os pais, a escola e autoridades em geral. O punk tem sido erroneamente rotulado simplesmente como uma dessas fases, na qual a pessoa rebelde tenta mostrar que é diferente de seus pares. É verdade que os estilos tradicionais de vestimenta e da música punk-rock são muitas vezes ofensivos e chocantes para o público comum, mas não é muito eficaz ou útil. Os punks evoluíram bastante para preferir a substância em vez de estilo, um fato sempre ignorado ou distorcido pelas representações da mídia. Não basta parecer diferente do normal, é importante tornar-se, conscientemente, senhor de si.

A rebeldia é uma das poucas características inegáveis do punk. Ela está implícita no significado do movimento e de sua música e suas letras. Quer a pessoa alcance o discernimento necessário para reconhecer realizações pessoais importantes ou não.

Nem todos os punks concordam em como apoiar os outros ou realizar mudanças fora de seus próprios círculos, mas existem necessidades em que a maioria adere. Como agora, o punk é composto nitidamente de uma maioria branca da classe média trabalhadora, em vez de operários brancos pobres ou de minorias, uma ação importante foi rejeitar seus lugares privilegiados na sociedade. Na opinião de um colunista da revista punk Profane Existence, “os punks são herdeiros da ordem mundial branca, racista, patriarcal e capitalista. Mas tiveram a iniciativa moral de rejeitar sua raça e posição social herdadas, porque sabem que elas não valem nada”.

Se os punks vieram ao mundo para ser filhos e filhas dos EUA, ao invés disso, eles se tornaram órfãos de uma sociedade arruinada.
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UNDERGROUND: EXPRESSÃO DE RESISTÊNCIA


Por definição, o movimento Underground representou, nos anos 60, e ainda representa um movimento de resistência, vanguarda cultural, contracultura. A palavra vanguarda vem do francês e era usada nos batalhões de infantaria das guerras. Com o tempo, passou a denominar tudo o que estava na frente, na moda, era notável. Assim, os beatniks, hipsters, hippies, rockers e outros se colocavam dentro da realidade sessentista como representantes de uma cultura alternativa em que o SER homem não se limitava às regras sociais impostas.

Tal movimento começou oficialmente através das poesias beats (anos 40) e seguiu se modificando – mas nunca perdendo a base revolucionária – chegando até a década de 1970 com o surgimento do punk. Essas manifestações eram muito mais do que música ou modo de se vestir, eram encaradas como ideologias, através das quais era possível fugir das linhascontroladoras do capitalismo ou do sofrimento causado por ele. Eram, principalmente, jovens que dentro de seus respectivos grupos revolucionários buscavam mudar a mentalidade social e, a partir disso, transformar a estrutura da sociedade; seria uma mudança de comportamento, mentalidade e atitudes.

Atualmente, o termo é usado para definir tudo aquilo que é restrito à cultura alternativa, se opondo ao “mainstream” (cultura de massa). São artistas que procuram produções baratas, alternativas e livres de qualquer impedimento imposto pelos grandes estúdios, produtores, editoras e grandes galerias de arte. Para algumas pessoas, como a fotógrafa Patrícia Cecatti, “esse ‘ar de revolução’ se dissipou e movimentos como o punk e o hippie desapareceram, restando apenas, roupas, atitude e influências musicais”. Como diria John Lennon: “The dream is over”! (O sonho acabou!)

Para alguns, a realidade é outra. Para Debbie, primeira mulher a ter um selo independente em toda a América Latina e dona da Ordinary Recordings, o punk não acabou e a filosofia Do it yourself ainda continua. “O punk hoje tem mais uma coisa de camisetas em branco, vegetarianismo, no religion. Vender seus discos sem usar a mídia de forma corrosiva, trabalhar com ética, se recusar a fazer parte do esquema, essa é a verdadeira rebeldia”.

Com a ascensão da Internet, as possibilidades de se popularizar um movimento ficaram maiores e, assim, as pessoas que hoje ainda tem um pouco dessas décadas de mudança podem reciclar estes movimentos sem perder alguns ideais. No entanto, é fato que não há mais aquela efervescência jovial.

Aqui no Brasil, o cenário underground é representado pela imprensa alternativa, por gêneros musicais como o punk e pelo cinema alternativo. No que diz respeito à música, surgiu no Nordeste, na década de 1970, um movimento baseado nas experiências revolucionárias dos anos anteriores. O chamado “Movimento Udigrudi” fazia uma analogia ao cenário underground que explodia mundo afora. Zé Ramalho e Alceu Valença são figuras famosas deste cenário.

Muitos nomearem o “Udigrudi” como beat-psicodelia recifense que recebia influência do Tropicalismo, Jovem Guarda, Regionalismo e “Beatlemania”. Tal ideologia levou consigo não só a música, mas também a literatura e até mesmo o artesanato. Vários foram os álbuns lançados que mostravam inovação musical – como a experiência de Zé Ramalho e Lula Côrtes no álbum duplo Paêbirú, em que são colocadas experiências psicodélicas ao estilo Jimmy Hendrix, que nem Os Mutantes chegaram a tanto. É lamentável que no Brasil isso seja pouco conhecido, mas estrangeiros pagam uma alta quantia por LP’s originais.

O movimento, que na sua significação comum indica algo subterrâneo, já não é mais assim. Os que antes encaravam o Underground como algo acessível pela minoria e pouco conhecido do grande público precisam mudar seus conceitos, porque felizmente – ou infelizmente, segundo muitos – a acessibilidade cresceu por meio da Internet e, o que antes eram gritos isolados, começa a tomar forma e força no âmbito geral.

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FONTES CONSULTADAS

- O’HARA, Craig. A filosofia do punk: nada mais do que barulho. Radical Livros, São Paulo, 2005.

- DIAS, Helen. Como o Woodstock aconteceu. Editora Record, São Paulo, 1994.

- MESSEDER PEREIRA, Carlos Alberto. O que é contracultura. 8ª ed., São Paulo, Editora Brasiliense, 1992.

- SILVA SANTOS, Gisele. Movimentos contraculturais: Mitos de uma Revolta, Poetas de uma Revolução. Periódico Akrópolis, n.1, v. 13, Paraná, jan/mar 2005, pp. 63-65.

- MACIEL, Luiz Carlos. Nova Consciência – Jornalismo contracultural 70-72. Livraria Eldorado, Rio de Janeiro, 1973.

- http://www.ufpel.tche.br/

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http://www.tropicalia.uol.com.br

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http://www.infoescola.com/

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http://www.artesbr.hpg.ig.br/

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http://www.revistaparadoxo.com/

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http://www.educaterra.terra.com.br/

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http://craifer.blogspot.com















sexta-feira, 29 de maio de 2009

Sociologia da Música- Na Ditadura Militar no Brasil!

Por: Sarah Abdala Elias, Raíssa Falcão, Luciano C., Bárbara Zaiden e Felipe D'stefani.


Poderíamos definir de uma forma simples e resumida que sociologia é uma ciência que estuda o comportamento humano dentro de determinadas estruturas da sociedade.
Para compreendermos como funciona a sociologia da música no contexto da ditadura no Brasil, devemos primeiramente entender a função da música na sociedade e também termos claro em nossas mentes esse conceito de sociologia.


A música foi uma das artes que sempre possuiu uma maior força de mobilização social, pois ela exerce grande influência em seu meio e vice e versa. Podemos ilustrar essa idea com uma frase de Arnold Schering, um musicólogo alemão que diz: "...em todos os tempos a música sempre foi o instrumento predileto para dominar os espíritos".


Não precisamos ir muito longe para entendermos melhor a frase de Arnold Schering e assim entendermos como a sociologia da música funciona.


No Brasil, no chamado "anos de chumbo" com a implantação da ditadura militar, que foi do ano de 1964 até 1985(com a redemocratização do Brasil), existiram movimentos musicais que protestavam contra o novo regime e utilizavam a música como principal instrumento de protesto para demonstrar a insatisfação da sociedade brasileira. A música interferia na sociedade, na tentativa de "dominar os espíritos" do povo e assim manter viva e fazer surgir a resistência ao regime. O momento social vivido interferia na música, principalmente na letra e no ritmo das canções.


Exemplos de movimentos musicais como esses temos aos montes, como: A Tropicália ( 1967/68), um movimento musical que tentou retomar os princípios antropofágicos de Oswald de Andrade e do movimento modernista de 1922, para romper tanto com o formato, que julgavam ser antigo, da música brasileira (bossa nova), quanto com a política vigente no pais.

Surgiram também os grandes festivais de música que deram espaço para os artistas e seus hinos contra o governo militar, o mais famoso deles foi o Festival de Música Popular Brasileira organizado pela TV Record, que consagrou vários artistas como Chico Buarque de Holanda e Geraldo Vandré.


O regime militar tinha plena consciência do poder que a música exercia na sociedade, e com o receio de ter o seu poder ameaçado a censura entrou em ação. Várias canções foram proibidas e vários artistas foram exilados.


Por outro lado, os meios de comunicação vinculados ao regime, divulgavam grupos musicais como a Jovem Guarda ( grupo musical criado na década de 60) que não tinham engajamento
político, ou seja, não ameaçavam o poder dos militares.

O regime também soube aproveitar a música a seu favor. Em pleno "milagre econômico" na década de 70, depois da conquista do tricampeonato mundial de futebol no México pela seleção brasileira, a música, "Pra frente Brasil", foi utilizada para criar um clima de otimismo e transmitir tranqüilidade a sociedade.


Podemos dizer tranquilamente que se o regime militar não tivesse sido implantado no Brasil naquela determinada época, naquela determinada sociedade e que se ele não tivesse as características que teve, a música brasileira não teria as obras e os artistas, que foram produzidas e revelados na época, e hoje poderíamos viver uma etapa musical diferente da atual.


Esses exemplos citados sobre regime militar, ilustram a influência que o meio exerce na arte e assim esclarece um pouco como a sociologia da música funcionou na ditadura militar brasileira.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A Invisibilidade Social


Por: Isabela Verri,Marcela Borges, Wynne Carneiro e Dayane Costa

            A invisibilidade social é um fenômeno decorrente da contemporaneidade, mas especificamente do século XX.  O termo invisibilidade social é um conceito que foi criado para designar as pessoas que ficam invisíveis socialmente, seja por preconceito ou indiferença. Esse conceito é bastante amplo, abarcando os vários fatores que levam a uma invisibilidade, tais como sociais, estéticos, econômicos, históricos, culturais, etc. Para as pessoas que sofrem com esse fenômeno, o fato que as identifica nessa minoria agredida é uma constante e latente humilhação. Todavia isso pode acarretar diversos problemas, como depressão, doenças psíquicas, distúrbios e o bullying.


O fenêmeno é determinado principalmente pelas influências sócio-econômicas advindas do sistema capitalista, o Neoliberalismo, e as crises  de identidade nas relações entre os indivíduos da sociedade moderna. Em cada caso há um tipo específico de invisibilidade social, que sempre ocorre em um contexto onde haja relações hierarquizadas, mesmo que irrefletido, e atingindo exclusivamente aqueles que estão à margem da sociedade, não se retendo apenas ao econômico, mas muitas vezes abrangendo-se nas ligações culturais, sociais e estéticas.

Em primeiro caso, decorrente do resultado econômico capitalista, há a invisibilidade pública; fenômeno condicionado a divisão social do trabalho, assim como classificou o psicólogo social Fernando Braga da Costa: “As relações trabalhistas influem a deixar de enxergar os sujeitos como seres transformadores e pensantes, tornando os homens-ferramenta”. Um exemplo disso seria a identificação de um garçom, pura e simplesmente, por sua função e uniforme, sem ater-se à singularidade do seu “EU”, ignorando seu nome, ignoramos também, sua personalidade individual, tornando-o um mero ser socialmente invisível. Outra abordagem de invisibilidade em função do modo de produção vigente é a partir da “Cultura de Consumo”. Esta nova cultura cria necessidades na particularidade dos indivíduos, ludibriando-os a acreditar que os bens materiais são necessários para a construção de uma identidade e um reconhecimento social, isto é, fazendo-os, assim, adquirir esse novo valor de consumo com o falso slogan: “somos o que temos”. Tudo em prol da visibilidade social.

No segundo caso, é necessário estabelecer uma comparação entre o indivíduo e sua identidade social – definida pela relação entre o EU e OUTRO. Assim, como DaMatta sugere em seu livro “O que é o Brasil?”  a existência de dois espaços básicos brasileiros: a casa e a rua. Essa teoria alude muito a questão de visibilidade social.  A casa reflete ao privado – não somente a morada, como as redondezas do bairro-, lá o indivíduo torna-se sujeito em tom de pessoalidade exacerbado, um ser totalmente visível. Ao contrário da rua, o público, que transforma o sujeito em indivíduo, um ser impessoal, caracterizado pela função do trabalho. Invisível socialmente, visível funcionalmente. Essa divergência de identidades traçadas pelo OUTRO, fazem com que o indivíduo entre em crise sobre sua verdadeira identidade. E é a partir daí que se cria outro tipo de invisibilidade social, a invisibilidade pela indiferença. Esta indiferença pode ser oriunda de um não destaque por parte do indivíduo ou por um estigma de preconceito por não se adequar à “normalidade”. Muitas vezes, a indiferença não é por insensibilidade ao outro, mas uma autopreservação, de evitarmos nos conscientizar do que é doloroso; um exemplo: são os pedintes e profissionais do sexo.

            A invisibilidade social, como citado anteriormente, leva ao desprezo e à humilhação.  Tais sentimentos, levam as pessoas à processos depressivos. De acordo com Gachet, “‘Aparecer’ é ser importante para a espécie humana, ser valorizado de alguma forma é parte integrante de nossa passagem pela vida, temos que ser alguém, um bom profissional, um bom estudante, um bom pai, uma boa mãe, enfim, desempenhar com louvor algum papel social”. Isso nos leva a outra conseqüência da exclusão social: a mobilização dos “invisíveis”. Esse grupo é formado por pessoas que se juntam para poder “aparecer”. Alguns exemplos: MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem terra), a Central Única de Favelas (CUFA), fóruns nacionais, etc. Além de grupos ditos oficiais, o indivíduo muitas vezes se sujeita a vestir-se, falar e comporta-se de uma maneira diferente. Sob as influências sócio-econômicas está a compra de roupas, acessórios, produtos eletrônicos e da moda que adéqüe o indivíduo em certo grupo social.

            O Bullying refere-se a atitudes ameaçadoras que se processam por meio de agressões físicas ou verbais e que podem impedir o desenvolvimento físico e emocional saudável. Segundo pesquisa realizada em 2002 e 2003 com 5500 alunos de quinta a oitava séries, grande número deles já se envolveram com isto, quer como agredidos, quer como agressores. A palavra vem do inglês e pode ser aplicada nos casos em que a criança recebe apelidos por suas características: ser muito alta, muito magra ou gorda ou naqueles manifestados fisicamente em que os mais fortes agridem o mais fraco. Algumas crianças têm de trocar de escola e outras não conseguem convencer os pais de perceber o que está acontecendo com elas. 

Com as informações concentradas nos parágrafos anteriores, podemos observar os impactos da Invisibilidade Social na sociedade contemporânea. Pequenos fatos que, acumulados, tornam proporções gigantescas e afetam diretamente as relações entre os indivíduos, qualidade de vida, questões econômicas, etc. Movimentos para confrontar de maneira prática essa invisibilidade são criados e tentam fazer a diferença, expondo a opinião de minorias, que outrora estariam condenadas ao limbo. Tratamentos psicológicos e psiquiátricos fornecem um feixe de luz no fim do túnel para quem já sofreu os impactos do Bullying, da pressão social para “ser alguém”. Tais soluções citadas, dentre inúmeras, provam que a solução para essa invisibilidade é conquistada a longo prazo e seus resultados podem não ser 100% eficazes, pois seus danos, em casos, são irreparáveis.

Os “invisíveis” estão ali, prontos para ocuparem o papel de coadjuvantes e não incomodarem a consciência burguesa. Uma realidade desagradável, porém concreta, que deve ser melhor trabalhada por  órgãos responsáveis para, num futuro próximo, ser reduzida a níveis aceitáveis.

 

Seminário Os Valores na Sociedade Contemporânea


segunda-feira, 25 de maio de 2009

Baile de Máscaras – do real ao virtual em apenas um clique



Alisson Caetano do Nascimento1
Bruna Dias Ferreira1



Vivemos em um mundo cada dia mais globalizado, onde novas tecnologias surgem e desaparecem com quase a mesma proporção e velocidade. A troca de informações passou a ser uma constante nos tempos atuais, podendo ocorrer de maneira presencial ou virtual, já que são inúmeras as “ferramentas” que conectam os indivíduos atualmente.

Essa diversidade de espaços virtuais de comunicação acaba criando elementos definidores de uma personalidade que poderá ou não ser similar a da realidade. Esta diversificação de personalidade e sua interferência no âmbito do real é o que buscaremos analisar.

A necessidade de comunicação é algo que sempre foi existente na realidade humana, pois desde os tempos mais remotos verifica-se a existência de grupos, onde se buscava a segurança e a sobrevivência, além promover a transformação do animal homem em ser humano.

Para que essa comunicação possa existir, é necessário que pessoas influenciem e também sejam influenciadas pelos demais a sua volta em um processo chamado de interação social. Esta interação social é que acaba estruturando a personalidade do indivíduo. Personalidade essa que segundo DIAS (2004. p.39) é o sistema de tendências do comportamento total de uma pessoa.

Hoje em dia é extremamente complexo delimitar uma barreira entre o real e o virtual, pois existem muitos casos em que ambos se misturam. Mas o que leva o indivíduo a forjar outras personalidades através de comunidades virtuais em sites de encontros, relacionamento, bate papo entre outros?

Avaliações para esse tipo de comportamento podem ter como base as considerações feitas pelo sociólogo Erving Goffman, na obra A representação do eu na vida cotidiana , na qual o mesmo utiliza-se de uma metáfora, através do uso do teatro como sua trama central, em que o autor tenta demonstrar que o relacionamento humano assume a qualidade de uma máscara, onde cada pessoa se “veste” de um personagem, e cria uma persona que só será revelada em ocasiões apropriadas.

Antes de toda inovação tecnológica, que promoveu a expansão do espaço dito como virtual, via-se que o ser humano já se apropriava de máscaras para enfrentar a vida cotidiana. As novas tecnologias apenas facilitaram esse “mascaramento”.

Segundo o sociólogo Geraldo Lopes de L. Júnior2 é na adolescência onde pode-se observar um maior número desvios de personalidade, que podem ser maléficos ou benéficos, pois é nessa fase que o jovem tem uma necessidade maior de uma aprovação, geralmente por grupos. Além disso, ele destaca que o mundo incentiva cada vez mais em uma sociedade que ele nomeia como “sociedade do espetáculo” ou “sociedade dos artistas” em que as pessoas tendem a querer aparentar o que não são ou possuir o que não tem. O sociólogo ressalta que o computador deve ser visto como uma ferramenta, nesse processo de mascarar personalidades, pois não é a máquina a responsável pelas alterações ou criação de personagens de um individuo; ela apenas fornece condições para que o indivíduo se torne “invisível” perante os demais, acabando assim por se transformar no personagem que mais lhe convém.

Porém, navegando pela internet encontramos opiniões divergentes sobre o assunto. Uma delas é do escritor e psicanalista Contardo Calligaris3 que o comportamento apresentado por um indivíduo na rede virtual é o mesmo que ele possui no universo real. Para ele, o jogo de esconde e mostra da internet – tanto na personalidade como fisicamente – é resultado da “parte lúdica”.

 Acontece que ninguém se mostra por inteiro para ninguém. Todo mundo tem diferentes facetas para certos momentos. Segundo o psicanalista as relações que nascem na rede não são virtuais, e que o comportamento apresentado é basicamente o mesmo do mundo real, em que as pessoas também se escondem ou fingem ser o que não são.

Exemplos de pessoas que se passaram pelo que não são é que não faltam, há até mesmo filme hollywoodiano que pode servir de exemplo prático, Prenda-me se for capaz (adaptação da biografia de Frank W. Abagnale, feita por Steven Spielberg em 2002) que relata a vida de um falsário nato. No Brasil também temos um caso que foi amplamente divulgado pela mídia, de um rapaz que ao se fazer passar várias vezes por rico e poderoso, uma delas como herdeiro de uma das maiores companhias áreas do país, conseguiu inúmeros privilégios. Acompanhe um pouco da história dos homens que foram considerados os cinco maiores picaretas da história segundo a revista Super interessante de setembro de 2006, pelo link:http://super.abril.com.br/superarquivo/2006/conteudo_463331.shtml

Apesar das divergentes opiniões sobre o assunto é necessário ressaltar que as relações estão em constante processo de mutação e consequentemente as pessoas também, e que sempre deve haver cautela quando se fala em real e virtual, pois sempre (e isso cabe a qualquer indivíduo) se cultiva o desejo de ser melhor do que se é, e não há problemas nisso, desde que não se torne uma obsessão que possa resultar numa total perda de identidade e muito menos prejudicar a vida das pessoas ao seu redor.



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1. Alunos do 1º período do curso de comunicação social – jornalismo, da Universidade Federal de Goiás.
2. Sociólogo, mestre em ciências da religião pela Universidade Católica de Goiás. Professor de Sociologia e Filosofia na UCG, Faculdades Padrão, FabecBrasil, UEG entre outras.
3. Escritor e psicanalista, doutor em psicologia clínica (Université de Provence) e colunista da Folha de São Paulo.


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Referência
DIAS, Reinaldo. Sociologia e Administração. Campinas, SP: Alínea, 2004. 3° Ed.

domingo, 10 de maio de 2009

Entrevista com estudante de ciências sociais da Universidade Federal de Goiás, Carlito Dias, sobre as teorias de Èmile Durkheim aplicadas a educação .

1) A sociedade é que muda a educação? Ou é a educação que muda a sociedade? A educação é um modo de abstração, um conceito gerado pela sociedade. Nosso meio é estruturado a partir de uma educação formal, tratada como um fenômeno social, o qual trabalha com a moral e entendimentos prioritários para análise dos elementos estruturais, sendo eles existentes ou coercitivos. Portanto, ela muda todas as características que dizem respeito ao individualismo, liberdade, os quais são importantes e valorativos para sociedade. Para Durkheim a educação tem o papel de transmitir tais valores, além de propiciar conhecimento familiar. É fundamental que a sociedade se instrua sobre estes valores construídos socialmente e referenciados por ele. Portanto, a educação analisa a sociedade e contribui para a elaboração e ao mesmo tempo inovação de fenômenos sociais. Sendo assim, a sociedade muda a educação e vice-versa.

2)Os limites para a inovação educacional sempre foram os limites da sociedade? Na época de Durkheim, ele não concordaria, porque hoje contamos com a presença da internet, que propicia, por exemplo, a educação à distância. Sim, os limites da educação sempre foram os limites da sociedade, porque a educação seria a representação mais ou menos consciente de fazer um aprendizado de forma coletiva dos integrantes da sociedade. Esta última gera valores, logo ela não é a some de indivíduos e sim o resultado das relações do cotidiano ou nas estruturas organizacionais de divisão social, a chamada diferenciação. A inovação nos parece mais como um processo de estranhamento a coisas novas ou aquilo que já não está no nosso quadro ou generalizado. Enquanto fenômeno geral, a sociedade começa a perceber sua dinâmica interna e fazer uma revisão autocrítica.

3)Segundo Durkheim, a educação tem por objetivo suscitar e desenvolver, no indíviduo, certo número de estados físicos, intelectuais e morais. Mesmo com toda a precariedade do sistema educacional brasileiro, com professores desmotivados e alunos mecanizados, a educação continua desempenhando seu papel de socialização? Sim. A educação caracteriza-se pela sua forma organizacional de hierarquia, na qual incentivamos o modo de pensar, agir e sentir para determinadas situações. Ao mesmo tempo em que permite a formação instrucional, ela é altamente coercitiva. Por mais que haja esta coerção sobre o indivíduo, ele tem o direito de fazer aquilo que quer independente deste “controle”; este pode aceitar, sublimar ou ir contra esta coerção. Portanto, somos livres para fazer críticas e também para colaborar com o sistema social.

4)Como a educação pode interferir no caráter do ser social? A educação como fenômeno social, responsabiliza-se pela moldagem das pessoas; possibilitando tanto o desenvolvimento biofísico quanto o mental. Este último deve ser levado em conta pela qualidade e não pela quantidade. Nos fenômenos definidores do indivíduo, há dessimetrias, fato que nos exige consciência para agirmos de forma correta diante da sociedade. Portanto, é possível mudar o caráter pela educação, desde que se coloque pressupostos de entendimento, como por exemplo, o entendimento de não matar. Tal fator, sendo compreendido e generalizado, gerará uma coerção social futura, com a formação do caráter.

5)Analisando as condições das escolas públicas e os problemas que elas passam, Durkheim propõe algo para solucionar as várias problemáticas que a educação enfrenta? Como fenômeno coletivo, a educação deve fazer um aprendizado de forma igualitária para gerar mudanças no sistema educacional. A partir disso, a escola deve ser laica, pública, de qualidade, de preferência mantida pelo Estado, ou seja, fatores que permitem a sua diversidade e a participação da sociedade. O Estado deve priorizar o bem coletivo e dar possibilidade para a educação criar técnicas eficazes para o modo de pensar, agir e sentir, aperfeiçoando valores que são importantes ou não para a coletividade. Portanto, a educação não deve ser vista como um concerto de trajeto, visto que Durkheim a considera importante para ser analisada enquanto entendimento e abstração que o ser humano age sobre a realidade.

6)O lingüista Mikhail Baktin afirma que a escrita é um fortíssimo controle social e que a escola é o principal instrumento desse controle. Essa afirmação concorda com as teorias de Durkheim? Backtin tem um conceito de polifonia muito bonito. Primeiro, a escrita é uma técnica de abstração, de compartilhamento de informações. Portanto, ela tem o papel daquilo que chamamos novamente de coerção, no qual o português é uma língua vinculada à nossa sociedade. Cada fenômeno social e coletivo apresenta regras de comunicação e a nossa regra é uma regra chamada língua portuguesa, esta advém da capacidade coletiva de compartilhamento de signos, experiências, símbolos. Backtin nos apresenta uma limitação, uma forma de escrever baseada em signos historicamente produzidos. A língua molda formas e ao mesmo tempo torna-se irreal; ela se coloca maior que nossa explicação. A partir disso, vamos reinterpretando, mudamos a dinâmica, ou seja, trabalhamos com os modos de agir,sentir e falar a língua. Portanto, as formas do símbolos são mais ou menos coletivos, pois elas moldam e ao mesmo tempo nos dão liberdade para agir sobre elas