sábado, 13 de junho de 2009

Torcidas Organizadas ou Badernas Generalizadas?

A primeira coisa que vem à cabeça quando se toca no assunto “torcida organizada”, é a violência cometida nos estádios. Confrontos com policiais, brigas entre grupos rivais, assassinatos de torcedores e uma série de outras barbáries povoam a concepção geral em relação às torcidas. Não poderia ser diferente, porque apenas isso é veiculado nas redes de comunicação, principalmente nos últimos tempos: cenas de vandalismos, comportamentos selvagens em locais que deveriam ser pontos de divertimento entre famílias e amigos.
Em Goiânia, no estádio Serra Dourada, casos assim são protagonizados pela Força Jovem, do Goiás Esporte Clube, e a Esquadrão Vilanovense, do Vila Nova Futebol Clube, em situações muito próximas de outras que acontecem envolvendo demais entidades pelos estádios do país. Tais torcidas, que se dizem organiadas, encontram-se na verdade em espantosa desordem.
No Brasil, o nascimento de tais grupos remete ao time do Flamengo, cujos torcedores em 1942, durante um clássico Fla-Flu (Flamengo x Fluminense) organizaram a Charanga do Flamengo, no intuito de reunir músicos para tocar durante a partida. Para os padrões conhecidos atualmente, no entanto, a precursora foi a Torcida Uniformizada do São Paulo, fundada em 1958.
Como uma organização formal e registrada, ao contrário do que muitos pensam, as torcidas possuem hierarquias altamente divididas, com presidentes, vice-presidentes, secretários, tesoureiros, etc. Algumas recebem financiamentos do clube pra o qual torcem, até mesmo ingressos de graça, os quais, muitas vezes, revendem em busca de lucros adicionais. Em São Paulo, maior estado do país, as torcidas de destaque, protagonistas na maioria das vezes de muitos atos violentos, são a Gaviões da Fiel (Corinthians) e a Mancha Verde (Palmeiras), tradicionais opostas em campo e nos estádios.
Aqui em Goiás, muitos crêem que a rivalidade possa ter motivos geográficos, pois a cidade foi construída para se expandir ao sul e oeste, região esta em que o Goiás Esporte Clube foi criado, um local com boa infra-estrutura e com visão próspera. Já o Vila surgiu na região leste, local que se desenvolveu pelo grande numero de pessoas da classe operaria; essa região era desprovida de quesitos básicos de infra-estrutura, sendo caracterizada como desestruturada e desorganizada.
Mas muitos também pensam que a rixa tenha motivos puramente bárbaros e primitivos. “Não podemos compreender o que se passa na cabeça destes “torcedores” para serem levados a cometer tais violências contra a gente. Eles parecem bichos, se comportam que nem bicho, animal mesmo”, é o que pensa Eloísa Mendes, de 32 anos, moradora há 7 do setor Vila Nova, que disse testemunhar as algazarras do Esquadrão Vilanovense. “Eles não respeitam ninguém, já chegam nos ônibus fazendo baderna e mandando a gente levantar dos bancos”, continua.

De fato, torcer por seus times deixou de ser o motivo que leva alguns torcedores ao estádio faz muito tempo. Usa-se cada vez mais a agressão como forma de mostrar poder, influência e “afinidade” com o time. No pensamento destas torcidas, quem mais “bate no inimigo” tem maior prestígio. As camisetas das vítimas são exibidas como troféus.
No entanto, generalizar os fatos é uma atitude impensada, pois nelas (nas torcidas) também se filiam membros cujo único intuito é demonstrar amor e dedicação ao time de coração. É o caso do jovem Luís Cláudio Silva de Morais, de 17 anos, membro da Força Jovem: “Entendo que é um movimento (a Força Jovem) criado para unir torcedores para torcer de uma forma organizada”, diz ele, que, no entanto, também foi vítima de agressão durante uma rixa entre sua torcida e a do time rival, o Vila Nova. “Levei uma pedrada na cabeça no meio de uma briga de um integrante do Esquadrão vilanovense”, comenta.
No trecho que se segue, extraído do site Terra, retrata bem a situação:
Outro torcedor, membro do Esquadrão Vilanovense, diz também já ter sido alvo de violência, embora assuma tê-la praticado igualmente “Já fui vitima, já agredi é como eu disse na hora não tem tempo de fazer nada a não ser se defender e correr”, diz André Medeiros, de 19 anos. “É um grupo de pessoas que se unem em um único ideal: Torcer”, define sobre o Esquadrão; em relação à ação policial nos estádios, ele pensa “Não querem saber se você esta ali para torcer ou não, por culpa de uma minoria que se organiza para pancadaria você é levado e agredido junto. Deveria ter um maior numero de policias nos estádios”.
Encarados por muitos membros de torcida como “inimigos” estes policiais têm atuado com cada vez mais freqüência em Goiás. Líderes de torcida são pegos com armas, drogas, e os “troféus” (geralmente, camisetas ensangüentadas das vítimas), em atitudes de repreensão. O Estado diz tomar providências para conter as agressões nos estádios, mas de forma geral, os atos de algazarra dos torcedores são respondidos com ainda mais agressões pelos policiais, gerando um círculo vicioso que não resolve o problema.
O uso da violência como forma de expressão nas torcidas já foi abordado em vários livros, filmes e documentários nos últimos anos. “A violência produzida pelos grupos de torcedores é parte da dimensão cotidiana dos grandes centros urbanos na sociedade brasileira contemporânea, conseqüência do esvaziamento político-cultural-coletivo dos novos sujeitos sociais”, opina o sociólogo Carlos Alberto Máximo Pimenta, professor de Sociologia da Universidade de Taubaté, autor do livro Torcidas Organizadas de Futebol: violência e auto-afirmação, aspectos da construção das novas relações sociais, em seu artigo Violência Entre Torcidas Organizadas de Futebol.
Na análise que fez, o sociólogo descobriu que, em sua maioria, os filiados são bastante jovens, entre 15 e 25 anos, e procuram nas torcidas uma espécie de ideal a seguir, um objetivo que os conduza e ocupe parte de suas vidas; este ideal seria representado na e pela vestimenta quase padronizada, pela força e valorização de atributos físicos e pela liberdade com que podem expressar-se através da violência sem serem repreendidos, ao contrário, recebendo muitas vezes incentivo e proteção.
Por isso, para o Professor, é preciso indagar: em quais circunstâncias socioculturais, políticas e econômicas nasce essa "nova categoria de torcedor"? Quais fatores contribuiram para esta mudança de comportamento, caracterizada pelo aumento das agressões nas arquibancadas e fora delas por grupos rivais, tendo como fator determinante no Brasil o advento de configurações organizativas com característica burocrática e militar, fenômeno essencialmente urbano e qe responsável por criar o "torcedor organizado"?
A resposta estaria numa nova configuração do espaço urbano, onde o predomínio do capital influenciou na disputa por poder e status entre jovens, disputas estas expressas muitas vezes em atos de negação do outro, com abusos de violência e competitividade. Estes jovens demasiadamente "individualizados", ignoram a importância dos demais como essenciais na construção de uma consciência baseada na coletividade, e esta negação gera diversos confrontos.
Ele também afirma que, além de preocupar os diretores esportivos em geral, tal problema envolvendo as torcidas é uma questão de profundo cunho social, visto que tem sua origem, apontada tanto pelos torcedores quanto por estudiosos, numa má distribuição de renda, exploração dos dirigentes esportivos e dos líderes das torcidas, ausência de expectativas no futuro destes jovens, ausência do Estado como mentor de políticas públicas de formação social, familiarização com a violência, falta de emprego, miséria generalizada, má arbitragem, gozação dos adversários, entre outros.
Estes fatores também são perceptíveis em Goiânia. Aqui, o setor Vila Nova, sede do Esquadrão Vilanovense e inspiração para o time, caracteriza-se por ter nascido numa época de grande crescimento demográfico na cidade, sem planejamento, algo parecido com o que ocorria com as cidades satélites, em Brasília. No entanto, vale ressaltar que não se levam em conta nesta matéria determinismos de nenhuma ordem, e as hipóteses para o advento da violência são unicamente sociais. O que intenciona-se informar é que, muitas vezes deixado de lado em políticas públicas e de incentivo econômico, manifestou-se no setor uma crescente de jovens revoltados com as condições em que viviam, e procurando chamar a atenção das anturidades por qualquer meio.
Além de tudo, ressalta-se a influência da imprensa na divulgação de um imagem mítica do poder conseguido pelas torcidas, o que inflao ego de muitos membros das mesmas. Isso não significa que haja uma apologia ou embelezamento dos atos praticados pelos torcedores, mas as notícias e reportagens, muitas vezes preocupadas apenas em vender a manchete sobre a morte de algum torcedor ocasionada por um confronto, cria na mentalidade dos jovens uma idéia de revanchismo e aumento de competitividade.
Num trecho do mesmo artigo sobreTorcidas Organizadas e Violência, o autor transcreve uma parte da entrevista que fez com o ex-presidente da Gaviões da Fiel, Jamelão, que diz: "(...) a imprensa tem que chegar junto com a gente (...), porque todo aquele que for associado que está na faixa de 15 a 17 anos, vendo uma matéria no jornal: 'são-paulino toca bomba no corintiano', isso automaticamente fica na memória dele no próximo jogo, ele vai fazer bomba para atacar o são-paulino. (...) A imprensa ao invés de colaborar e querer saber quais os pontos para ter uma solução, eles preferem vender a imagem, vender o jornal (...)".
Muitos líderes políticos parecem ter percebido isto e, finalmente, tomaram atitudes em prol de uma conscientização dos torcedores. Além de reuni-los antes das partidas, impedindo sua ida aos estádios, as autoridades promovem aulas e palestras onde são exibidos vídeos sobre solidariedade, respeito ao próximo e responsabilidade, bem como acompanhamento de psicólogos, entre outros.
Para o estudante Luis Cláudio, membro da Força Jovem, esta medida faz sentido: “Penso que ao verem o mal que fazem nos estádios sofreram com o peso na consciência”; já para o jovem André Medeiros, membro do Esquadrão Vilanovense, não: “Não acredito que serviços comunitários podem mudar o caráter de uma pessoa”.
Ainda é muito cedo para se afirmar com certeza sobre os resultados desta iniciativa, mas vale ressaltar que se, pelo menos, uma atitude para reverter o quadro foi tomada, então é porque percebeu-se a proporção catastrófica dos fatos e quer-se mudá-lo. No entanto, mais que palestras e serviços comunitários, é preciso dar a estes jovens uma formação educacional consciente e oferecer-lhes condições para que possam expressar-se não pela violência, mas através de palavras e atos conscientes.

(Entrevista)

Abaixo publicamos as entrevistas com os dois torcedores de grupos diferentes, o primeiro da Força Jovem (Goiás) e o segundo do Esquadrão Vilanovense (Goiás).


ENTREVISTA COM UM INTEGRANTE DA FORÇA JOVEM

Nome: Luís Cláudio Silva de Moraes

Qual a sua torcida? Força Jovem

O que você entende sobre torcida organizada? Entendo que é um movimento criado para unir torcedores para torcer de uma forma organizada

Como você vê a torcida organizada do seu time? É uma torcida que emociona, mas poderia ser um pouco mais controlada para que nenhum baderneiro que não vai aos estádios torcer não penetre na nossa torcida.

O que você acha da violência nos estádios? A violência apenas apaga o brilho das torcidas e dos jogadores em um local feito para levar entretenimento à violência é totalmente dispensável

Você já foi vítima (ou agressor) em atos de violência nos estádios? Já fui vitima de agressão levei uma pedrada na cabeça no meio de uma briga de um integrante do Esquadrão vilanovense

O que você acha da ação da policia nos estádios? A policia tenta agir da melhor forma possível, mas em meio a algazarra não leva em consideração que ali também há cidadãos de bem.

Para você a conscientização, palestras e serviços comunitários para torcedores presos terão algum efeito?Acredito que sim. Penso que ao verem o mal que fazem nos estádios sofreram com o peso na consciência.

ENTREVISTA COM UM INTEGRANTE DO ESQUARÃO VILANOVENSE

Nome: André Medeiros

Qual a sua torcida? Esquadrão Vilanovense

O que você entende sobre torcida organizada? É um grupo de pessoas que se unem em um único ideal “Torcer”.

Como você vê a torcida organizada do seu time? É a maior torcida de Goiás quando junta toda aquela massa gritando Vila Nova chego arrepiar. Pra mim é a melhor do mundo.

O que você acha da violência nos estádios? É uma coisa que não deveria ter, mas na hora do calor a briga começa do seu lado não tem como fugir.

Você já foi vítima (ou agressor) em atos de violência nos estádios? Já fui vitima, já agredi é como eu disse na hora não tem tempo de fazer nada a não ser se defender e correr.

O que você acha da ação da policia nos estádios? Não querem saber se você esta ali para torcer ou não, por culpa de uma minoria que se organiza para pancadaria você é levado e agredido junto. Deveria ter um maior numero de policias nos estádios.

Para você a conscientização, palestras e serviços comunitários para torcedores presos terão algum efeito?Realmente acredito que não, essas pessoas que são presas para não sofrerem uma punição maior como a cadeia se submete a qualquer coisa, não acredito que serviços comunitários podem mudar o caráter de uma pessoa.


Referências:

PIMENTA, Carlos Alberto Máximo. (2000). Violência entre torcidas organizadas de futebol. São Paulo em Perspectiva.

Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Torcida_organizada

Disponível em http://jbonline.terra.com.br/nextra/2009/02/09/e090210214.asp




Membros do grupo: Alana Sales, Anamaria Rodrigues, Guilherme Araújo, Lara Leão, Layane Palhares, Laura dos Santos e Myla Alves.

3 comentários:

  1. Penso que a atitude de alguns torcedores está acabando com o verdadeiro sentido de ser um torcedor, pois já que eles afirmam que são torcedores e praticam tais atos então que nome deve ser dado para as pessoas que vão a um estádio com a simples intenção de torcer e fazer do futebol um encontro de final de semana entre amigos e parentes????

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  2. O tema é muito interessante e o trabalho ficou bom. Faltou ganhar um caráter mais sociológico. A questão da competição social e dos valores dominantes seria uma boa contribuição nesse sentido. As entrevistas poderiam ter sido integradas na matéria. Bom trabalho!

    (9,0)

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  3. torcida organizada num é só violencia nao, tbm tem seu lado bom.

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