segunda-feira, 25 de maio de 2009

Baile de Máscaras – do real ao virtual em apenas um clique



Alisson Caetano do Nascimento1
Bruna Dias Ferreira1



Vivemos em um mundo cada dia mais globalizado, onde novas tecnologias surgem e desaparecem com quase a mesma proporção e velocidade. A troca de informações passou a ser uma constante nos tempos atuais, podendo ocorrer de maneira presencial ou virtual, já que são inúmeras as “ferramentas” que conectam os indivíduos atualmente.

Essa diversidade de espaços virtuais de comunicação acaba criando elementos definidores de uma personalidade que poderá ou não ser similar a da realidade. Esta diversificação de personalidade e sua interferência no âmbito do real é o que buscaremos analisar.

A necessidade de comunicação é algo que sempre foi existente na realidade humana, pois desde os tempos mais remotos verifica-se a existência de grupos, onde se buscava a segurança e a sobrevivência, além promover a transformação do animal homem em ser humano.

Para que essa comunicação possa existir, é necessário que pessoas influenciem e também sejam influenciadas pelos demais a sua volta em um processo chamado de interação social. Esta interação social é que acaba estruturando a personalidade do indivíduo. Personalidade essa que segundo DIAS (2004. p.39) é o sistema de tendências do comportamento total de uma pessoa.

Hoje em dia é extremamente complexo delimitar uma barreira entre o real e o virtual, pois existem muitos casos em que ambos se misturam. Mas o que leva o indivíduo a forjar outras personalidades através de comunidades virtuais em sites de encontros, relacionamento, bate papo entre outros?

Avaliações para esse tipo de comportamento podem ter como base as considerações feitas pelo sociólogo Erving Goffman, na obra A representação do eu na vida cotidiana , na qual o mesmo utiliza-se de uma metáfora, através do uso do teatro como sua trama central, em que o autor tenta demonstrar que o relacionamento humano assume a qualidade de uma máscara, onde cada pessoa se “veste” de um personagem, e cria uma persona que só será revelada em ocasiões apropriadas.

Antes de toda inovação tecnológica, que promoveu a expansão do espaço dito como virtual, via-se que o ser humano já se apropriava de máscaras para enfrentar a vida cotidiana. As novas tecnologias apenas facilitaram esse “mascaramento”.

Segundo o sociólogo Geraldo Lopes de L. Júnior2 é na adolescência onde pode-se observar um maior número desvios de personalidade, que podem ser maléficos ou benéficos, pois é nessa fase que o jovem tem uma necessidade maior de uma aprovação, geralmente por grupos. Além disso, ele destaca que o mundo incentiva cada vez mais em uma sociedade que ele nomeia como “sociedade do espetáculo” ou “sociedade dos artistas” em que as pessoas tendem a querer aparentar o que não são ou possuir o que não tem. O sociólogo ressalta que o computador deve ser visto como uma ferramenta, nesse processo de mascarar personalidades, pois não é a máquina a responsável pelas alterações ou criação de personagens de um individuo; ela apenas fornece condições para que o indivíduo se torne “invisível” perante os demais, acabando assim por se transformar no personagem que mais lhe convém.

Porém, navegando pela internet encontramos opiniões divergentes sobre o assunto. Uma delas é do escritor e psicanalista Contardo Calligaris3 que o comportamento apresentado por um indivíduo na rede virtual é o mesmo que ele possui no universo real. Para ele, o jogo de esconde e mostra da internet – tanto na personalidade como fisicamente – é resultado da “parte lúdica”.

 Acontece que ninguém se mostra por inteiro para ninguém. Todo mundo tem diferentes facetas para certos momentos. Segundo o psicanalista as relações que nascem na rede não são virtuais, e que o comportamento apresentado é basicamente o mesmo do mundo real, em que as pessoas também se escondem ou fingem ser o que não são.

Exemplos de pessoas que se passaram pelo que não são é que não faltam, há até mesmo filme hollywoodiano que pode servir de exemplo prático, Prenda-me se for capaz (adaptação da biografia de Frank W. Abagnale, feita por Steven Spielberg em 2002) que relata a vida de um falsário nato. No Brasil também temos um caso que foi amplamente divulgado pela mídia, de um rapaz que ao se fazer passar várias vezes por rico e poderoso, uma delas como herdeiro de uma das maiores companhias áreas do país, conseguiu inúmeros privilégios. Acompanhe um pouco da história dos homens que foram considerados os cinco maiores picaretas da história segundo a revista Super interessante de setembro de 2006, pelo link:http://super.abril.com.br/superarquivo/2006/conteudo_463331.shtml

Apesar das divergentes opiniões sobre o assunto é necessário ressaltar que as relações estão em constante processo de mutação e consequentemente as pessoas também, e que sempre deve haver cautela quando se fala em real e virtual, pois sempre (e isso cabe a qualquer indivíduo) se cultiva o desejo de ser melhor do que se é, e não há problemas nisso, desde que não se torne uma obsessão que possa resultar numa total perda de identidade e muito menos prejudicar a vida das pessoas ao seu redor.



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1. Alunos do 1º período do curso de comunicação social – jornalismo, da Universidade Federal de Goiás.
2. Sociólogo, mestre em ciências da religião pela Universidade Católica de Goiás. Professor de Sociologia e Filosofia na UCG, Faculdades Padrão, FabecBrasil, UEG entre outras.
3. Escritor e psicanalista, doutor em psicologia clínica (Université de Provence) e colunista da Folha de São Paulo.


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Referência
DIAS, Reinaldo. Sociologia e Administração. Campinas, SP: Alínea, 2004. 3° Ed.

Um comentário:

  1. O tema é interessante e ficou bem estruturado. A abordagem poderia ter sido um pouco mais desenvolvida, no sentido de mostrar alguns aspectos que diferenciam o caso virtual do real, pois no primeiro, o anonimato pode permitir uma maior revelação devido não-identificação e não-punição, enquanto que no mundo real, isso não funciona na maioria das vezes.

    (9,0).

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